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A Divina ComédiaParaíso · Canto III
ParaísoIII

O SOL por quem primeiro ardeu meu peito

130 versos · 70 de 100


Na lua estão as almas daqueles que não cumpriram plenamente seus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati, que resolve uma sua dúvida sobre o contentamento dos espíritos bem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do mosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constança.

  1. O SOL por quem primeiro ardeu meu peito,
  2. Provando e refutando, me mostrara
  3. Da formosa verdade o doce aspeito.
  1. Por confessar-me do erro, em que vagara,
  2. Quanto possível fosse, convencido,
  3. Mais alto a fronte para a sua alçara.
  1. Eis fui de uma visão tal possuído,
  2. Que olvidei meu desejo inteiramente,
  3. Ficando em contemplá-la submergido.
  1. Bem como em cristal puro e transparente,
  2. Ou nágua clara, límpida e tranqüila,
  3. Que deixa à vista o fundo seu patente,
  1. A imagem nossa quase se aniquila,
  2. Em modo, que uma per’la em nívea fronte
  3. Se faz mais perceptível à pupila,
  1. Assim, dispostas a falar defronte
  2. Várias figuras vi: eu no erro oposto
  3. De Narciso caí amando a fonte.
  1. Eu, cuidando as feições do seu composto
  2. Ver num espelho, súbito volvia,
  3. Por bem saber quem fosse, atrás o rosto.
  1. Ninguém vi. Logo o gesto me atraía
  2. Da doce guia, que, a sorir-me estando,
  3. Dos santos olhos no esplendor ardia.
  1. — “No sorriso, não pasmes, reparando,
  2. A causa é” — diz — “teu pueril engano,
  3. À verdade caminhas vacilando.
  1. “Andas em falso, como sóis, de plano:
  2. Verdadeiras substâncias estás vendo;
  3. Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.
  1. “Interroga, o que ouvires crer devendo;
  2. Pois da verdade a luz, que as esclarece,
  3. As conduz, de todo erro as defendendo.” —
  1. Volto-me então à sombra, que parece
  2. Mais desejosa de falar: torvado
  3. Começo, e a voz impaciência empece.
  1. — “Tu, espírito eleito, que, enlevado,
  2. Da vida eterna aqui fruis a doçura,
  3. Que entende só quem tem expr’imentado,
  1. “Grã mercê me farás, se porventura
  2. Disseres o teu nome e a sorte vossa.” —
  3. A responder-me leda se apressura.
  1. — “Ao bom desejo a caridade nossa,
  2. Como a que manda a corte sua inteira
  3. Imitá-la, defere quanto possa.
  1. “Eu era lá no mundo virgem freira:
  2. Diz-te a memória, se as feições me guarda,
  3. Que sou, posto mais bela, e verdadeira.
  1. “Atenta bem: verás que sou Picarda:
  2. Estou nesta bendita companhia,
  3. Venturosa na esfera, que é mais tarda.
  1. “As nossas afeições que inflama e guia
  2. Somente a inspiração do Esp’rito Santo,
  3. Enlevam-se em cumprir ordens que envia.
  1. “A sorte, ao parecer somenos tanto,
  2. Nos coube, por ter sido descurado
  3. O sacro voto e em parte posto a um canto.” —
  1. Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado
  2. Vosso rebrilha um não sei que divino,
  3. Que o tem do que foi de antes transmutado.
  1. “Não fui, pois, em lembrar-me repentino;
  2. Porém, do que disseste me ajudando,
  3. Eu do que hás sido em recordar-me atino.
  1. “Mas vós que estais aqui dita logrando
  2. Não sentis de outro céu desejo ardente
  3. Por ver mais alto mais amor gozando?” —
  1. Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
  2. E disse da alegria radiante,
  3. O seu primeiro amor como quem sente:
  1. “Rege o nosso querer, em paz constante,
  2. A caridade, irmão: só desejamos
  3. O que ora temos e não mais avante.
  1. “Anelando ir mais alto do que estamos,
  2. Seríamos rebeldes à vontade,
  3. A que aprouve esta estância, que habitamos.
  1. “Pois nos cumpre existir na caridade,
  2. Surgir não pode em nós tal pensamento,
  3. Dessa virtude oposto à santidade.
  1. “Condição de eternal contentamento
  2. É preceito cumprir do Onipotente:
  3. Um só com ele é logo o nosso intento.
  1. “Do reino em cada plaga refulgente
  2. Somos, do reino todo muito ao grado
  3. E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.
  1. “Seu preceito a paz nossa se há tomado:
  2. Ele é mar a que tudo precipita,
  3. Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” —
  1. Conheço então que o Paraíso habita
  2. Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo
  3. Não chover de um só modo a suma dita.
  1. Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,
  2. E de outro resta o apetite vivo,
  3. Um se agradece, expondo-se o desejo.
  1. Por gesto e voz assim fiz-me expressivo
  2. Para a tela saber que a lançadeira
  3. Não rematara com lavor ativo.
  1. — “Perfeita em vida, em mérito altaneira
  2. Acima santa está, que há regulado
  3. Vestes e véus, com que professa freira,
  1. “Até finar-se, vele ou durma ao lado
  2. Desse esposo, que todo voto aceita,
  3. Se lhe é por caridade consagrado.
  1. “Menina e moça, à sua regra estreita
  2. Submeti-me, e do mundo me apartando
  3. Jurei aos seus preceitos ser sujeita.
  1. “Roubou-me à paz do claustro iníquo bando,
  2. Mais à maldade do que ao bem afeito:
  3. Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!
  1. “Este fúlgido esp’rito, em cujo aspeito
  2. (À direita demora-me) se acende
  3. Quanto lume o céu nosso tem perfeito,
  1. “O que digo de mim de si o entende;
  2. Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado
  3. O santo véu, que o voto à fronte prende.
  1. “Mas, ao mundo tornando de mau grado,
  2. Que os seus piedosos usos ofendia,
  3. Guardou fiel seu peito ao sacro estado.
  1. “É a excelsa Constância a que radia:
  2. Deu de Suábia ao Imperador segundo
  3. Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —
  1. Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo
  2. Cantou: cantando aos olhos desparece,
  3. Qual peso, que mergulha em mar profundo.
  1. Segui-la a vista quis quanto pudesse;
  2. De desejo invencível atraída,
  3. Voltou-se, quando em todo se esvaece,
  1. E em Beatriz fitou-se embevecida.
  2. Mas era o rosto seu tão fulgurante,
  3. Que ante o lume sentiu-se esmorecida.
  1. Pelo efeito atalhei-me titubante.
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