O SOL por quem primeiro ardeu meu peito
130 versos · 70 de 100
Na lua estão as almas daqueles que não cumpriram plenamente seus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati, que resolve uma sua dúvida sobre o contentamento dos espíritos bem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do mosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constança.
- O SOL por quem primeiro ardeu meu peito,
- Provando e refutando, me mostrara
- Da formosa verdade o doce aspeito.
- Por confessar-me do erro, em que vagara,
- Quanto possível fosse, convencido,
- Mais alto a fronte para a sua alçara.
- Eis fui de uma visão tal possuído,
- Que olvidei meu desejo inteiramente,
- Ficando em contemplá-la submergido.
- Bem como em cristal puro e transparente,
- Ou nágua clara, límpida e tranqüila,
- Que deixa à vista o fundo seu patente,
- A imagem nossa quase se aniquila,
- Em modo, que uma per’la em nívea fronte
- Se faz mais perceptível à pupila,
- Assim, dispostas a falar defronte
- Várias figuras vi: eu no erro oposto
- De Narciso caí amando a fonte.
- Eu, cuidando as feições do seu composto
- Ver num espelho, súbito volvia,
- Por bem saber quem fosse, atrás o rosto.
- Ninguém vi. Logo o gesto me atraía
- Da doce guia, que, a sorir-me estando,
- Dos santos olhos no esplendor ardia.
- — “No sorriso, não pasmes, reparando,
- A causa é” — diz — “teu pueril engano,
- À verdade caminhas vacilando.
- “Andas em falso, como sóis, de plano:
- Verdadeiras substâncias estás vendo;
- Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.
- “Interroga, o que ouvires crer devendo;
- Pois da verdade a luz, que as esclarece,
- As conduz, de todo erro as defendendo.” —
- Volto-me então à sombra, que parece
- Mais desejosa de falar: torvado
- Começo, e a voz impaciência empece.
- — “Tu, espírito eleito, que, enlevado,
- Da vida eterna aqui fruis a doçura,
- Que entende só quem tem expr’imentado,
- “Grã mercê me farás, se porventura
- Disseres o teu nome e a sorte vossa.” —
- A responder-me leda se apressura.
- — “Ao bom desejo a caridade nossa,
- Como a que manda a corte sua inteira
- Imitá-la, defere quanto possa.
- “Eu era lá no mundo virgem freira:
- Diz-te a memória, se as feições me guarda,
- Que sou, posto mais bela, e verdadeira.
- “Atenta bem: verás que sou Picarda:
- Estou nesta bendita companhia,
- Venturosa na esfera, que é mais tarda.
- “As nossas afeições que inflama e guia
- Somente a inspiração do Esp’rito Santo,
- Enlevam-se em cumprir ordens que envia.
- “A sorte, ao parecer somenos tanto,
- Nos coube, por ter sido descurado
- O sacro voto e em parte posto a um canto.” —
- Respondi-lhe: — “No aspeito sublimado
- Vosso rebrilha um não sei que divino,
- Que o tem do que foi de antes transmutado.
- “Não fui, pois, em lembrar-me repentino;
- Porém, do que disseste me ajudando,
- Eu do que hás sido em recordar-me atino.
- “Mas vós que estais aqui dita logrando
- Não sentis de outro céu desejo ardente
- Por ver mais alto mais amor gozando?” —
- Sorriu-se a sombra e as outras docemente;
- E disse da alegria radiante,
- O seu primeiro amor como quem sente:
- “Rege o nosso querer, em paz constante,
- A caridade, irmão: só desejamos
- O que ora temos e não mais avante.
- “Anelando ir mais alto do que estamos,
- Seríamos rebeldes à vontade,
- A que aprouve esta estância, que habitamos.
- “Pois nos cumpre existir na caridade,
- Surgir não pode em nós tal pensamento,
- Dessa virtude oposto à santidade.
- “Condição de eternal contentamento
- É preceito cumprir do Onipotente:
- Um só com ele é logo o nosso intento.
- “Do reino em cada plaga refulgente
- Somos, do reino todo muito ao grado
- E do Rei, que à sua lei nos molda a mente.
- “Seu preceito a paz nossa se há tomado:
- Ele é mar a que tudo precipita,
- Que cria, ou faz natura ao seu mandado.” —
- Conheço então que o Paraíso habita
- Quem stá do céu em qualquer parte, e vejo
- Não chover de um só modo a suma dita.
- Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,
- E de outro resta o apetite vivo,
- Um se agradece, expondo-se o desejo.
- Por gesto e voz assim fiz-me expressivo
- Para a tela saber que a lançadeira
- Não rematara com lavor ativo.
- — “Perfeita em vida, em mérito altaneira
- Acima santa está, que há regulado
- Vestes e véus, com que professa freira,
- “Até finar-se, vele ou durma ao lado
- Desse esposo, que todo voto aceita,
- Se lhe é por caridade consagrado.
- “Menina e moça, à sua regra estreita
- Submeti-me, e do mundo me apartando
- Jurei aos seus preceitos ser sujeita.
- “Roubou-me à paz do claustro iníquo bando,
- Mais à maldade do que ao bem afeito:
- Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!
- “Este fúlgido esp’rito, em cujo aspeito
- (À direita demora-me) se acende
- Quanto lume o céu nosso tem perfeito,
- “O que digo de mim de si o entende;
- Sendo freira, como eu foi-lhe arrancado
- O santo véu, que o voto à fronte prende.
- “Mas, ao mundo tornando de mau grado,
- Que os seus piedosos usos ofendia,
- Guardou fiel seu peito ao sacro estado.
- “É a excelsa Constância a que radia:
- Deu de Suábia ao Imperador segundo
- Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.” —
- Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo
- Cantou: cantando aos olhos desparece,
- Qual peso, que mergulha em mar profundo.
- Segui-la a vista quis quanto pudesse;
- De desejo invencível atraída,
- Voltou-se, quando em todo se esvaece,
- E em Beatriz fitou-se embevecida.
- Mas era o rosto seu tão fulgurante,
- Que ante o lume sentiu-se esmorecida.
- Pelo efeito atalhei-me titubante.