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A Divina ComédiaInferno · Canto XXVII
InfernoXXVII

A FLAMA já se erguia e estava quieta

136 versos · 27 de 100


Outro danado, entra a falar com Dante. É Guido de Montefeltro, o qual pede notícias da Romanha sua terra natal. Conta, depois, que foi condenado por causa de um mau conselho que, fiado na prévia absolvição, dera ao papa Bonifácio VIII.

  1. A FLAMA já se erguia e estava quieta,
  2. Não mais falando, e já se retirava
  3. Com permissão do meu gentil Poeta,
  1. Quando outra, que de perto caminhava,
  2. Pelos confusos sons, que desprendia,
  3. Olhar nos fez seu cimo, que oscilava.
  1. Como o sículo touro, que mugia
  2. A vez primeira, o pranto ressoando
  3. Do inventor, que seu prêmio recebia;
  1. Berrava pela voz do miserando,
  2. Na brônzea forma, em dor tanto pungente,
  3. Que parecia vivo estar penando:
  1. Assim se convertia o som plangente
  2. De flama no rumor, lhe falecendo
  3. Caminho, em que irrompesse prontamente.
  1. Mais se exalar pelo ápice em podendo
  2. Dar-lhe impulso por ter já conseguido
  3. Desse mesquinho a língua, se movendo,
  1. “Tu, a quem me dirijo” — hemos ouvido —
  2. “Que, inda há pouco, dizias em lombardo:
  3. Podes ir, tens assaz já respondido.
  1. “Posto em chegar um tanto eu fosse tardo,
  2. De ouvir-me não despraza-te a demora;
  3. Bem vês, me não despraz: entanto eu ardo.
  1. “Se a este abismo tenebroso agora
  2. Tombas saudoso dessa doce terra
  3. Latina, onde hei pecado tanto outrora,
  1. “Se os Romanhóis têm paz, dize-me, se guerra,
  2. Pois eu fui lá dos montes, entre Urbino
  3. E essa, origem do Tibre, altiva serra”.
  1. Para escutar atento a fronte inclino.
  2. Eis, tocando-me a um lado, diz meu Guia:
  3. “Podes ora falar, que este é Latino”.
  1. Eu, que já prestes a resposta havia,
  2. Tornei ao pecador incontinente:
  3. “Alma, que o fogo assim veste e crucia,
  1. “Tua Romanha em guerra permanente
  2. Sempre é no coração dos seus tiranos.
  3. Porém nenhuma agora tem patente.
  1. “Hoje é Ravena o que era, há longos anos,
  2. De Polenta a águia forte ali se aninha;
  3. Com largas asas cobre à Cérvia os planos.
  1. “A terra, que no tardo assédio tinha
  2. Pelo sangue francês sido inundada
  3. Sob verde leão, sofre mesquinha.
  1. “Dos Mastins de Verruchio a subjugada
  2. Gente os dentes cruéis inda sentia:
  3. Morte a Montagna deram desapiedada.
  1. “Em Lamone, em Santerno inda regia
  2. Do alvo ninho o leão, se convertendo
  3. De um pra outro partido cada dia.
  1. “A cidade que o Sávio banha, sendo
  2. Entre o plaino e a montanha, em liberdade
  3. Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo.
  1. “Ora nos diz quem foste na verdade;
  2. Condescendente sê, como hemos sido:
  3. No mundo haja o teu nome longa idade”.
  1. O fogo rumoreja e comovido
  2. De um lado a outro a ponta aguda agita;
  3. Depois emite a voz neste sentido:
  1. “Se esta resposta minha fosse dita
  2. A quem do mundo à luz daqui voltasse,
  3. Queda ficara a minha língua aflita.
  1. “Mas como é certo que jamais tornasse
  2. Quem no inferno caiu, se não me engano,
  3. De falar não hei medo, que embarace,
  1. “Homem de armas, depois fui Franciscano,
  2. Crendo pelo cordão ser emendado;
  3. Por crê-lo certo, me esquivara ao dano,
  1. “Se o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)
  2. Não me volvesse à primitiva estrada.
  3. Como e por que te fique declarado.
  1. “Enquanto a humana forma era habitada
  2. Por mim, não provei ser leão por feitos,
  3. Mas raposa, por astúcia abalizada.
  1. “Estratégia sutil, ardis perfeitos
  2. Tantos soube, que os âmbitos da terra
  3. Eram à fama de meu nome estreitos.
  1. “Da existência na quadra, em que muito erra
  2. Quem, de surgir no porto esperançado,
  3. Nem colhe os cabos nem as velas ferra,
  1. “Odiei quanto houvera mais amado
  2. E humilhei-me confesso e arrependido...
  3. E o perdão, ai de mim! fora alcançado...
  1. “Dos novos Fariseus Príncipe infido,
  2. Em Latrão guerra crua declara:
  3. Não contra Mouro, nem Judeu descrido,
  1. “Contra cristãos as iras ateara;
  2. Nenhum traidor contra Acre combatera
  3. Ou do Soldão na terra traficara.
  1. “Sacras ordens em si não considera,
  2. Nem cargo excelso, em mim o da humildade
  3. Cordão, que os penitentes seus macera.
  1. “Como foi de Sirati à soledade
  2. Constantino a Silvestre pedir cura
  3. Da lepra: assim também à enfermidade
  1. “De seu febril orgulho este procura
  2. Remédio em meu conselho. Escrupuloso
  3. Calei-me: de ébrio vi nele a loucura.
  1. “Fala — insistiu — não sejas temeroso!
  2. Absolto és desde já, se Palestrino
  3. A vencer me ensinares ardiloso.
  1. “Eu abro e fecho o céu: poder divino
  2. As duas chaves têm, a que há negado
  3. O meu antecessor preço condi’no.
  1. “Já destas razões graves abalado,
  2. Pior partido no silêncio vendo,
  3. Lhe tornei: — Padre Santo, se o pecado,
  1. “Em que ora vou cair, stás-me absolvendo,
  2. Darás ao sólio teu glória e conforto
  3. Prometendo demais, pouco fazendo.
  1. “Francisco me acudiu, quando fui morto;
  2. Mas clamou anjo negro apressurado:
  3. — Não mo tomes; assim me causas torto!
  1. “Lugar foi-lhe entre os meus assinalado:
  2. Dês que há dado o conselho fementido,
  3. Ficou pelos cabelos agarrado.
  1. “Perdão só tem quem geme arrependido;
  2. Pecado à penitência não se amanha,
  3. Não pode aquele andar a esta unido.
  1. “Ai! qual foi meu pavor, quando, com sanha
  2. Empolgando-me, disse: — Creste acaso
  3. Que me falta de lógico arte e manha?
  1. “A Minos me arrastou, que sem mais prazo,
  2. Da cauda em voltas oito o dorso enreda,
  3. Raivoso morde-a e diz: — É neste caso
  1. “Que aos maus prisão se dá na labareda.
  2. Assim onde me vês, fiquei perdido,
  3. Vou chorando, em tais vestes, minha queda”.
  1. Tendo, pois, desta sorte concluído,
  2. Aquela flama se partiu gemendo
  3. E agitando o seu vórtice estorcido.
  1. Eu e Virgílio, então, seguido havendo
  2. Pelo rochedo, ao arco nós subimos,
  3. Que o nono fosso cobre, onde sofrendo
  1. Os que cizânia semearam vimos.
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