A FLAMA já se erguia e estava quieta
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Outro danado, entra a falar com Dante. É Guido de Montefeltro, o qual pede notícias da Romanha sua terra natal. Conta, depois, que foi condenado por causa de um mau conselho que, fiado na prévia absolvição, dera ao papa Bonifácio VIII.
- A FLAMA já se erguia e estava quieta,
- Não mais falando, e já se retirava
- Com permissão do meu gentil Poeta,
- Quando outra, que de perto caminhava,
- Pelos confusos sons, que desprendia,
- Olhar nos fez seu cimo, que oscilava.
- Como o sículo touro, que mugia
- A vez primeira, o pranto ressoando
- Do inventor, que seu prêmio recebia;
- Berrava pela voz do miserando,
- Na brônzea forma, em dor tanto pungente,
- Que parecia vivo estar penando:
- Assim se convertia o som plangente
- De flama no rumor, lhe falecendo
- Caminho, em que irrompesse prontamente.
- Mais se exalar pelo ápice em podendo
- Dar-lhe impulso por ter já conseguido
- Desse mesquinho a língua, se movendo,
- “Tu, a quem me dirijo” — hemos ouvido —
- “Que, inda há pouco, dizias em lombardo:
- Podes ir, tens assaz já respondido.
- “Posto em chegar um tanto eu fosse tardo,
- De ouvir-me não despraza-te a demora;
- Bem vês, me não despraz: entanto eu ardo.
- “Se a este abismo tenebroso agora
- Tombas saudoso dessa doce terra
- Latina, onde hei pecado tanto outrora,
- “Se os Romanhóis têm paz, dize-me, se guerra,
- Pois eu fui lá dos montes, entre Urbino
- E essa, origem do Tibre, altiva serra”.
- Para escutar atento a fronte inclino.
- Eis, tocando-me a um lado, diz meu Guia:
- “Podes ora falar, que este é Latino”.
- Eu, que já prestes a resposta havia,
- Tornei ao pecador incontinente:
- “Alma, que o fogo assim veste e crucia,
- “Tua Romanha em guerra permanente
- Sempre é no coração dos seus tiranos.
- Porém nenhuma agora tem patente.
- “Hoje é Ravena o que era, há longos anos,
- De Polenta a águia forte ali se aninha;
- Com largas asas cobre à Cérvia os planos.
- “A terra, que no tardo assédio tinha
- Pelo sangue francês sido inundada
- Sob verde leão, sofre mesquinha.
- “Dos Mastins de Verruchio a subjugada
- Gente os dentes cruéis inda sentia:
- Morte a Montagna deram desapiedada.
- “Em Lamone, em Santerno inda regia
- Do alvo ninho o leão, se convertendo
- De um pra outro partido cada dia.
- “A cidade que o Sávio banha, sendo
- Entre o plaino e a montanha, em liberdade
- Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo.
- “Ora nos diz quem foste na verdade;
- Condescendente sê, como hemos sido:
- No mundo haja o teu nome longa idade”.
- O fogo rumoreja e comovido
- De um lado a outro a ponta aguda agita;
- Depois emite a voz neste sentido:
- “Se esta resposta minha fosse dita
- A quem do mundo à luz daqui voltasse,
- Queda ficara a minha língua aflita.
- “Mas como é certo que jamais tornasse
- Quem no inferno caiu, se não me engano,
- De falar não hei medo, que embarace,
- “Homem de armas, depois fui Franciscano,
- Crendo pelo cordão ser emendado;
- Por crê-lo certo, me esquivara ao dano,
- “Se o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)
- Não me volvesse à primitiva estrada.
- Como e por que te fique declarado.
- “Enquanto a humana forma era habitada
- Por mim, não provei ser leão por feitos,
- Mas raposa, por astúcia abalizada.
- “Estratégia sutil, ardis perfeitos
- Tantos soube, que os âmbitos da terra
- Eram à fama de meu nome estreitos.
- “Da existência na quadra, em que muito erra
- Quem, de surgir no porto esperançado,
- Nem colhe os cabos nem as velas ferra,
- “Odiei quanto houvera mais amado
- E humilhei-me confesso e arrependido...
- E o perdão, ai de mim! fora alcançado...
- “Dos novos Fariseus Príncipe infido,
- Em Latrão guerra crua declara:
- Não contra Mouro, nem Judeu descrido,
- “Contra cristãos as iras ateara;
- Nenhum traidor contra Acre combatera
- Ou do Soldão na terra traficara.
- “Sacras ordens em si não considera,
- Nem cargo excelso, em mim o da humildade
- Cordão, que os penitentes seus macera.
- “Como foi de Sirati à soledade
- Constantino a Silvestre pedir cura
- Da lepra: assim também à enfermidade
- “De seu febril orgulho este procura
- Remédio em meu conselho. Escrupuloso
- Calei-me: de ébrio vi nele a loucura.
- “Fala — insistiu — não sejas temeroso!
- Absolto és desde já, se Palestrino
- A vencer me ensinares ardiloso.
- “Eu abro e fecho o céu: poder divino
- As duas chaves têm, a que há negado
- O meu antecessor preço condi’no.
- “Já destas razões graves abalado,
- Pior partido no silêncio vendo,
- Lhe tornei: — Padre Santo, se o pecado,
- “Em que ora vou cair, stás-me absolvendo,
- Darás ao sólio teu glória e conforto
- Prometendo demais, pouco fazendo.
- “Francisco me acudiu, quando fui morto;
- Mas clamou anjo negro apressurado:
- — Não mo tomes; assim me causas torto!
- “Lugar foi-lhe entre os meus assinalado:
- Dês que há dado o conselho fementido,
- Ficou pelos cabelos agarrado.
- “Perdão só tem quem geme arrependido;
- Pecado à penitência não se amanha,
- Não pode aquele andar a esta unido.
- “Ai! qual foi meu pavor, quando, com sanha
- Empolgando-me, disse: — Creste acaso
- Que me falta de lógico arte e manha?
- “A Minos me arrastou, que sem mais prazo,
- Da cauda em voltas oito o dorso enreda,
- Raivoso morde-a e diz: — É neste caso
- “Que aos maus prisão se dá na labareda.
- Assim onde me vês, fiquei perdido,
- Vou chorando, em tais vestes, minha queda”.
- Tendo, pois, desta sorte concluído,
- Aquela flama se partiu gemendo
- E agitando o seu vórtice estorcido.
- Eu e Virgílio, então, seguido havendo
- Pelo rochedo, ao arco nós subimos,
- Que o nono fosso cobre, onde sofrendo
- Os que cizânia semearam vimos.