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A Divina ComédiaInferno · Canto VI
InfernoVI

DO soçobro tornando a aflita mente

115 versos · 6 de 100


No terceiro círculo estão os gulosos, cuja pena consiste em ficarem prostrados debaixo de uma forte chuva de granizo, água e neve, e ser dilacerados pelas unhas e dentes de Cérbero. Entre os condenados Dante encontra Ciacco, florentino, que fala com Dante acerca das discórdias da pátria comum.

  1. DO soçobro tornando a aflita mente,
  2. Que da cópia infelice contristado
  3. Havia tanto o padecer pungente,
  1. Achei-me novamente circundado
  2. De outros míseros, de outras amarguras,
  3. Que via em toda parte, ao longe e ao lado.
  1. Sou no terceiro círculo, onde escuras,
  2. Eternas chuvas, gélidas caíam,
  3. Pesadas, sempre as mesmas, sempre impuras.
  1. Saraiva grossa, neve, água desciam
  2. Desse ar pelas alturas tenebrosas:
  3. No chão caindo infeto odor faziam.
  1. Latia com três fauces temerosas,
  2. Cérbero, o cão multíface e furente,
  3. Contra as turbas submersas, criminosas.
  1. Sangüíneos olhos tem, o ventre ingente,
  2. Barba esquálida, as mãos de unhas armadas;
  3. Rasga, esfola, atassalha a triste gente.
  1. Uivam à chuva, quais lebréus, coitados!
  2. Mudam de lado sem cessar, buscando
  3. Defensa e alívio, as almas condenadas.
  1. Cérbero, o grão réptil, nos divisando
  2. Os dentes mostra, as bocas escancara,
  3. De sanha os membros todos convulsando.
  1. Meu Guia, as mãos abrindo, se prepara:
  2. Enche-as de terra, e às guelas devorantes
  3. Lança da fera essa iguaria amara.
  1. Qual mastim, que em latidos retumbantes
  2. Brada de fome, e, apenas a sacia
  3. Devorando, aquieta as iras de antes:
  1. Tal, aplacando a fúria, parecia
  2. O demônio que as almas atordoa:
  3. Surdez de ouvi-lo o mal lhes pouparia.
  1. O solo, onde pisamos, se povoa
  2. Das sombras, que essas chuvas derrubavam:
  3. Forma e aparência tinham de pessoa.
  1. Sobre a terra estendidas, a alastravam;
  2. Mas uma surge, súbito sentada,
  3. Aos passos que adiante nos levavam.
  1. “Tu” — disse — “que és guiado pela estrada
  2. Do inferno, vê se acaso me conheces:
  3. Nasceste antes de eu ser nesta morada”.
  1. Tornei-lhe: “A grande angústia em que padeces,
  2. Tua feição lembrar-me não consente:
  3. Inota face aos olhos me ofereces.
  1. “Quem és que em tal lugar tão duramente
  2. Pelos pecados teus stás dando a pena?
  3. Se há maior, nenhuma é tão displicente”. —
  1. — “Em tua pátria” — responde — “que tão plena
  2. Já é de inveja, que transborda o saco,
  3. Existência gozei leda e serena.
  1. “Vós, Florentinos, me chamastes Ciacco:
  2. Por ter da gula a intemperança amado,
  3. À chuva peno enregelado e fraco.
  1. “Mas sou nesta miséria acompanhado;
  2. Pois quantos aqui estão de igual castigo
  3. Punidos foram por igual pecado”. —
  1. — “Com dor sincera” — lhe falei — “te digo
  2. Que esse tormento o peito me enternece.
  3. Saberás se os partidos a perigo
  1. “Florença levarão, que já padece?
  2. Algum justo ali vive? A que motivo
  3. A cizânia se deve, que ali cresce?” —
  1. — “Virão a sangue após ódio excessivo;
  2. E o partido selvagem triunfante
  3. O outro lançará feroz e esquivo.
  1. “Três sóis passados, chegará o instante
  2. De ser pelos vencidos suplantado,
  3. Que esforça alguém, que aos dois faz bom semblante.
  1. “Por algum tempo o vencedor ousado
  2. A cerviz calcará do outro partido
  3. Que se aflige oprimido e envergonhado.
  1. “Justos há dois: ninguém lhes presta ouvido.
  2. Três brandões — Avareza, Orgulho, Inveja,
  3. Incêndio têm nos peitos acendido”. —
  1. Assim a flébil narração boqueja.
  2. Eu lhe respondo: “A informação completa;
  3. Favor farás a quem te ouvir almeja.
  1. “Farinata e Tegghiaio, de alma reta,
  2. Jacopo Rusticucci, Mosca, Arrigo,
  3. E os mais que da virtude o amor inquieta,
  1. “Onde estão? Diz e franco sê comigo!
  2. Saber qual seja anelo a sorte sua:
  3. Stão no céu, ou no inferno têm castigo?” —
  1. “Entre os que sofrem punição mais crua
  2. Estão, por seus maus feitos, lá no fundo:
  3. Se lá desces, verão a face tua.
  1. “Quando tomares ao saudoso mundo,
  2. De mim aviva aos meus o pensamento...
  3. Não mais: volto ao silêncio meu profundo” —
  1. Os olhos que não tinham movimento,
  2. Torcendo fita em mim; já curva a frente
  3. E cai entre os mais cegos num momento.
  1. E disse, o Vate: “Em sono permanente
  2. Hão de aguardar a angélica chamada,
  3. Quando os julgar severo o Onipotente.
  1. “Cad’um, a triste sepultura achada,
  2. Ressurgindo na carne e na figura,
  3. Voz ouvirá pra sempre reboada”. —
  1. A passo lento assim pela mistura
  2. Das sombras e da chuva caminhando,
  3. Falávamos da vida, que é futura.
  1. — “Mestre” — lhe disse então — “irá medrando
  2. Depois da grã sentença esse tormento?
  3. Igual pungir terá? Será mais brando?” —
  1. — “Do teu saber recorre ao documento:
  2. Verás que ao ente quando mais se eleva
  3. Do bem, da dor mais cresce o sentimento.
  1. “Bem que esta raça condenada à treva
  2. Jamais da perfeição se eleve à altura
  3. Ressurgindo, há de ter pena mais seva”. —
  1. Perlustramos do círculo a cintura,
  2. De cousas praticando que não digo,
  3. Té descer um degrau na estância escura.
  1. Ali’stá Pluto, o nosso grande imigo.
Próximo cantoVIIPAPE Satan, pape Satan, aleppe