DO engenho meu a barca as velas solta
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Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense, pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois, relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.
- DO engenho meu a barca as velas solta
- Para correr agora em mar jucundo,
- E ao despiedoso pego a popa volta.
- Aquele reino cantarei segundo,
- Onde pela alma a dita é merecida
- De ir ao céu livre do pecado imundo.
- Ressurja ora a poesia amortecida,
- Ó Santas Musas, a quem sou votado;
- Unir ao canto meu seja servida
- Calíope o som alto e sublimado,
- Que às Pegas esperar não permitira
- Lhes fosse o atrevimento perdoado.
- Suave cor de oriental safira,
- Que se esparzia no sereno aspeito
- Do ar até onde o céu primeiro gira,
- Recreia a vista; e eu ledo me deleito
- Em surdindo da estância tenebrosa,
- Que tanto os olhos contristara e o peito.
- A bela estrela, a amor auspiciosa
- Sorrir alegre faz todo o Oriente,
- Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.
- Ao outro pólo endereçando a mente,
- Volto-me à destra, e os astros quatro vejo,
- Que vira só a primitiva gente.
- Folgar o céu parece ao seu lampejo.
- Do Norte, ó região, viúva hás sido,
- De os contemplar te não foi dado ensejo.
- Depois de os remirar, já dirigido
- Olhos havia para o pólo oposto,
- Donde a Carroça havia-se partido,
- Eis noto um velho, perto de mim posto,
- Que reverência tanta merecia,
- Que mais do pai não deve o filho ao rosto.
- Nas longas barbas nívea cor saía,
- Sendo na coma sua semelhante,
- Que em dupla trança ao peito lhe caía.
- A luz dos santos astros rutilante
- De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
- Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.
- — “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
- Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
- Movendo as nobres plumas, disse presto.
- “Quem vos guiou alumiando os passos
- Para a profunda noite haver deixado,
- Que enluta sempre os infernais espaços?
- “As leis do abismo acaso se hão quebrado?
- O céu dá, seus decretos revogando,
- Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —
- Travou de mim Virgílio, me exortando
- Por voz, aceno e mãos: como queria
- Os joelhos curvei, olhos baixando.
- — “De motu meu não vim” — lhe respondia —
- De Dama aos rogos, que do céu descera
- Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.
- Pois que é desejo teu que a nossa vera
- Condição definida mais te seja,
- Prestar me cumpro explicação sincera.
- “Aura da vida este home’inda bafeja,
- Mas tanto, de imprudente, se arriscara,
- Que é maravilha vivo ainda esteja.
- “Disse como a salvá-lo me apressara:
- Por onde os passos dirigir pudesse
- Essa vereda só se deparara.
- “Mostrei-lhe a gente, que por má padece;
- Mostrar-lhe intento os que ora estão purgando
- Pecados no lugar, que te obedece.
- “Longo seria como o vou guiando
- Dizer-te: é força do alto a que me impele,
- Para te ver e ouvir o encaminhando,
- Digna-te, pois, bení’no ser com ele:
- A liberdade anela, que é tão cara:
- Sabe-o bem quem por ela a vida expele.
- “Por ela a morte não te há sido amara
- Em Útica, onde a veste foi deixada,
- Que em Juízo há de ser de luz tão clara.
- “Por nós eterna lei não é violada:
- Ele inda vive; Minos não me empece;
- No círc’lo estou, onde acha-se encerrada
- “Tua Márcia, que em casto olhar parece
- Rogar-te ainda que por tua a tenhas:
- Lembrando-a em favor nosso te enternece.
- “Ir deixa aos reinos teus, não nos retenhas;
- Hei de a Márcia dizê-lo agradecido,
- Se lá de ti falar-se não desdenhas.” —
- — “Márcia, a meus olhos tão jucunda há sido
- Que — tornou-lhe Catão — eu de bom grado
- No mundo quanto quis lhe hei concedido.
- “Estando além do rio detestado,
- Mover-me ora não pode: este preceito
- Me foi, deixando o Limbo, decretado.
- “Se por dama celeste hás sido eleito,
- Como disseste, é vã lisonja agora;
- O que requeres em seu nome aceito.
- “Vai, pois: cingindo este homem sem demora
- De liso junco, lava-lhe o semblante;
- Toda a impureza seja posta fora.
- “Cumpre que, quando ele estiver perante
- O anjo, que do céu vier primeiro,
- Névoa nenhuma os olhos lhe quebrante.
- “Lá onde baixa o ponto derradeiro
- Do mar batido, esta ilha tem viçoso
- Juncal que alastra todo o seu nateiro.
- “Não pode vegetal rijo ou frondoso
- Ter vida ali; porque não dobraria
- Ao embate das ondas caprichoso.
- “Aqui tornar inútil vos seria.
- Vereis ao sol, que surge, o melhor passo
- Para subir do monte à penedia.” —
- Sumiu-se. Ergui-me, então, sem mais espaço,
- E em silêncio; olhos fitos no semblante
- De Virgílio, amparei-me com seu braço.
- — “Comigo, ó filho” — diz-me — “segue avante.
- Atrás voltemos; pois daqui se inclina
- O plano para o mar, que jaz distante.” —
- Fugia ante a alva a sombra matutina;
- Já nos ficava aos olhos descoberta,
- Posto remota, a oscilação marina.
- Pela planície andávamos deserta,
- Como quem trilha a estrada, que perdera,
- E teme não achar vereda certa.
- Chegando à parte, onde não pudera
- Do rocio triunfar o sol nascente,
- Porque à sombra o frescor pouco modera,
- Sobre a relva meu Mestre brandamente
- As mãos ambas abriu: o movimento
- Lhe noto e, o compreendo, diligente,
- As lacrimosas faces lhe apresento.
- Virgílio as cores restaurou-me ao gesto,
- Que desbotara o inferno nevoento.
- Vimos à erma praia a passo lesto:
- Nunca sobre águas suas navegara
- Homem que o mundo torne a ver molesto.
- Cingido fui, como Catão mandara.
- Portento! A humilde planta renascida,
- Qual antes vi no solo, onde a arrancara,
- Sem diferença, de súbito crescida.