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A Divina ComédiaPurgatório · Canto I
PurgatórioI

DO engenho meu a barca as velas solta

136 versos · 35 de 100


Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e vê fulgentíssimas estrelas. Encontra-se na ilha do Purgatório.O guardião da ilha, Catão Uticense, pergunta aos dois Poetas qual é o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois, relativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.

  1. DO engenho meu a barca as velas solta
  2. Para correr agora em mar jucundo,
  3. E ao despiedoso pego a popa volta.
  1. Aquele reino cantarei segundo,
  2. Onde pela alma a dita é merecida
  3. De ir ao céu livre do pecado imundo.
  1. Ressurja ora a poesia amortecida,
  2. Ó Santas Musas, a quem sou votado;
  3. Unir ao canto meu seja servida
  1. Calíope o som alto e sublimado,
  2. Que às Pegas esperar não permitira
  3. Lhes fosse o atrevimento perdoado.
  1. Suave cor de oriental safira,
  2. Que se esparzia no sereno aspeito
  3. Do ar até onde o céu primeiro gira,
  1. Recreia a vista; e eu ledo me deleito
  2. Em surdindo da estância tenebrosa,
  3. Que tanto os olhos contristara e o peito.
  1. A bela estrela, a amor auspiciosa
  2. Sorrir alegre faz todo o Oriente,
  3. Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.
  1. Ao outro pólo endereçando a mente,
  2. Volto-me à destra, e os astros quatro vejo,
  3. Que vira só a primitiva gente.
  1. Folgar o céu parece ao seu lampejo.
  2. Do Norte, ó região, viúva hás sido,
  3. De os contemplar te não foi dado ensejo.
  1. Depois de os remirar, já dirigido
  2. Olhos havia para o pólo oposto,
  3. Donde a Carroça havia-se partido,
  1. Eis noto um velho, perto de mim posto,
  2. Que reverência tanta merecia,
  3. Que mais do pai não deve o filho ao rosto.
  1. Nas longas barbas nívea cor saía,
  2. Sendo na coma sua semelhante,
  3. Que em dupla trança ao peito lhe caía.
  1. A luz dos santos astros rutilante
  2. De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,
  3. Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.
  1. — “Quem sois que em contra o rio escuro e mesto
  2. Do eterno cárcere heis fugido os laços?” —
  3. Movendo as nobres plumas, disse presto.
  1. “Quem vos guiou alumiando os passos
  2. Para a profunda noite haver deixado,
  3. Que enluta sempre os infernais espaços?
  1. “As leis do abismo acaso se hão quebrado?
  2. O céu dá, seus decretos revogando,
  3. Que dos maus seja o meu domínio entrado?” —
  1. Travou de mim Virgílio, me exortando
  2. Por voz, aceno e mãos: como queria
  3. Os joelhos curvei, olhos baixando.
  1. — “De motu meu não vim” — lhe respondia —
  2. De Dama aos rogos, que do céu descera
  3. Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.
  1. Pois que é desejo teu que a nossa vera
  2. Condição definida mais te seja,
  3. Prestar me cumpro explicação sincera.
  1. “Aura da vida este home’inda bafeja,
  2. Mas tanto, de imprudente, se arriscara,
  3. Que é maravilha vivo ainda esteja.
  1. “Disse como a salvá-lo me apressara:
  2. Por onde os passos dirigir pudesse
  3. Essa vereda só se deparara.
  1. “Mostrei-lhe a gente, que por má padece;
  2. Mostrar-lhe intento os que ora estão purgando
  3. Pecados no lugar, que te obedece.
  1. “Longo seria como o vou guiando
  2. Dizer-te: é força do alto a que me impele,
  3. Para te ver e ouvir o encaminhando,
  1. Digna-te, pois, bení’no ser com ele:
  2. A liberdade anela, que é tão cara:
  3. Sabe-o bem quem por ela a vida expele.
  1. “Por ela a morte não te há sido amara
  2. Em Útica, onde a veste foi deixada,
  3. Que em Juízo há de ser de luz tão clara.
  1. “Por nós eterna lei não é violada:
  2. Ele inda vive; Minos não me empece;
  3. No círc’lo estou, onde acha-se encerrada
  1. “Tua Márcia, que em casto olhar parece
  2. Rogar-te ainda que por tua a tenhas:
  3. Lembrando-a em favor nosso te enternece.
  1. “Ir deixa aos reinos teus, não nos retenhas;
  2. Hei de a Márcia dizê-lo agradecido,
  3. Se lá de ti falar-se não desdenhas.” —
  1. — “Márcia, a meus olhos tão jucunda há sido
  2. Que — tornou-lhe Catão — eu de bom grado
  3. No mundo quanto quis lhe hei concedido.
  1. “Estando além do rio detestado,
  2. Mover-me ora não pode: este preceito
  3. Me foi, deixando o Limbo, decretado.
  1. “Se por dama celeste hás sido eleito,
  2. Como disseste, é vã lisonja agora;
  3. O que requeres em seu nome aceito.
  1. “Vai, pois: cingindo este homem sem demora
  2. De liso junco, lava-lhe o semblante;
  3. Toda a impureza seja posta fora.
  1. “Cumpre que, quando ele estiver perante
  2. O anjo, que do céu vier primeiro,
  3. Névoa nenhuma os olhos lhe quebrante.
  1. “Lá onde baixa o ponto derradeiro
  2. Do mar batido, esta ilha tem viçoso
  3. Juncal que alastra todo o seu nateiro.
  1. “Não pode vegetal rijo ou frondoso
  2. Ter vida ali; porque não dobraria
  3. Ao embate das ondas caprichoso.
  1. “Aqui tornar inútil vos seria.
  2. Vereis ao sol, que surge, o melhor passo
  3. Para subir do monte à penedia.” —
  1. Sumiu-se. Ergui-me, então, sem mais espaço,
  2. E em silêncio; olhos fitos no semblante
  3. De Virgílio, amparei-me com seu braço.
  1. — “Comigo, ó filho” — diz-me — “segue avante.
  2. Atrás voltemos; pois daqui se inclina
  3. O plano para o mar, que jaz distante.” —
  1. Fugia ante a alva a sombra matutina;
  2. Já nos ficava aos olhos descoberta,
  3. Posto remota, a oscilação marina.
  1. Pela planície andávamos deserta,
  2. Como quem trilha a estrada, que perdera,
  3. E teme não achar vereda certa.
  1. Chegando à parte, onde não pudera
  2. Do rocio triunfar o sol nascente,
  3. Porque à sombra o frescor pouco modera,
  1. Sobre a relva meu Mestre brandamente
  2. As mãos ambas abriu: o movimento
  3. Lhe noto e, o compreendo, diligente,
  1. As lacrimosas faces lhe apresento.
  2. Virgílio as cores restaurou-me ao gesto,
  3. Que desbotara o inferno nevoento.
  1. Vimos à erma praia a passo lesto:
  2. Nunca sobre águas suas navegara
  3. Homem que o mundo torne a ver molesto.
  1. Cingido fui, como Catão mandara.
  2. Portento! A humilde planta renascida,
  3. Qual antes vi no solo, onde a arrancara,
  1. Sem diferença, de súbito crescida.
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