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A Divina ComédiaPurgatório · Canto V
PurgatórioV

OS passos do meu Guia acompanhando

136 versos · 39 de 100


Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma multidão de almas que se aproximam deles, depois de ter percebido que Dante é vivo. São espíritos de pessoas que saíram da vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e perdoaram a seus inimigos.

  1. OS passos do meu Guia acompanhando,
  2. Dessas almas um pouco era distante,
  3. Quando uma, atrás de nós, o dedo alçando,
  1. — “Vede! A luz” — exclamou — “não é brilhante
  2. À sestra do que vai mais demorado;
  3. Pelo meneio a um vivo é semelhante.”
  1. Olhos volvi daquela voz ao brado,
  2. E as vi notar, de maravilha cheias,
  3. Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.
  1. — “Por que tanto, ó meu filho, assim te enleias?”
  2. Disse o Mestre. — “Por que deténs o passo?
  3. Acaso o murmurar daqui receias?
  1. “Segue-me: a vozes vãs ouvido escasso!
  2. Qual torre, inabalável sê, dos ventos
  3. À fúria opondo válido embaraço;
  1. “Quem firmeza não tem nos pensamentos,
  2. Do fim se aparta, a que alma se endereça
  3. E, assim, malogra, instável, seus intentos.
  1. — “Sigo-te!” — ao Mestre meu tornei depressa.
  2. Cumpria assim falar; meu voto incende
  3. O rubor, que ao perdão a falta apressa.
  1. Entanto por atalho a costa ascende
  2. Adiante de nós turba cantando
  3. Devota Miserere, e ao cimo tende.
  1. Ao ver que estava o corpo meu vedando
  2. Dos luminosos raios a passagem
  3. O canto suspendeu, rouco “oh!” soltando
  1. E dois dos seus em forma de mensagem
  2. Correndo contra nós assim falaram:
  3. “Quem sois, que assim fazeis esta viagem?”
  1. Disse Virgílio: — “Aos que vos enviaram
  2. Tornai que ao corpo do homem que estais vendo
  3. Vitais alentos inda não deixaram.
  1. “Se os passos, como cuido, estão detendo,
  2. Por ver-lhe a sombra, a causa é conhecida;
  3. Terão proveito, as honras lhe fazendo.” —
  1. Mais prontos que os vapores à descida
  2. Da noite, o ar sereno aluminando,
  3. Ou névoa, ao pôr do sol, do céu varrida,
  1. Partem, à grei de novo se ajuntando;
  2. Como esquadrão, que corre à desfilada,
  3. Voltam todos, a nós se arremessando.
  1. “Ao nosso encontro vem turba avultada;
  2. Pretensões todos têm” — disse-me o Guia
  3. — “Andando, os ouve; não convém parada.”
  1. — “Ó alma, que do céu vais à alegria
  2. No próprio corpo, em que feliz nasceste,
  3. Demora o passo um pouco” — a grei dizia,
  1. “De entre nós vê se alguém reconheceste
  2. Para ao mundo levares a notícia;
  3. Por que deter-te ainda não quiseste?
  1. “Morte a todos causou cruel nequícia;
  2. Pecamos sempre até que à final hora
  3. Do céu a luz se nos mostrou propícia.
  1. “Assim, contritos, perdoando, fora
  2. Fomos da vida, a paz com Deus já feita;
  3. De o ver desejo nos acende agora.”
  1. — “A feição vossa” — eu disse — “é tão desfeita,
  2. Que nenhum reconheço; mas, se acaso
  3. Ser útil posso no que a vós respeita,
  1. “Pela paz, a servir-vos já me emprazo,
  2. Que busco, deste sábio acompanhado,
  3. De mundo em mundo, no mais breve prazo.”
  1. “Cada qual” — me tornou — “está confiado
  2. Em ti, mister não há teu juramento,
  3. Se não faltar poder ao teu bom grado.
  1. “Aos outros me antecipo: ao rogo atento,
  2. Tu se fores à terra que demora
  3. Entre a Romanha e a que é de Carlo assento,
  1. “Aos meus em Fano compassivo exora
  2. Que com preces sufraguem-me piedosos
  3. Para o mal expurgar que fiz outrora.
  1. “Nasci lá, sofri golpes espantosos,
  2. Que a existência cortaram-me tão cara,
  3. De Antenórios nos planos pantanosos,
  1. “Onde o funesto fim nunca esperara.
  2. Assim o quis do Marquês d’Este a ira,
  3. Que o exício meu injusto aparelhara.
  1. “Ah! se, fugindo, me acolhesse a Mira
  2. Quando alcançou-me de Oriais perto,
  3. Eu fora inda hoje aonde se respira.
  1. “Mas, correndo ao paul, sem rumo certo,
  2. Caí, no ceno e juncos enleado:
  3. De sangue um lago fez meu peito aberto.”
  1. “Se for” — outro então disse — “executado
  2. Desejo que te impele ao alto monte,
  3. Sê por mim de piedade impressionado.
  1. “De Montefeltro fui e fui Buonconte;
  2. De mim Joana, e ninguém mais, não cura;
  3. Entre todos por isso abaixo a fronte.”
  1. — “Que força — que má ventura
  2. Tão longe te arrastou de Campaldino,
  3. Que se ignora onde tens a sepultura?”
  1. — “Oh!” — replicou-me — “Ao pé de Casentino
  2. Um rio passa que se chama Arquiano,
  3. Nascido lá sobre o Ermo, no Apenino.
  1. “De dor lá onde o perde o nome, insano,
  2. Cheguei: ao pé fugia, e, traspassado,
  3. O colo meu ensangüentava o plano.
  1. “Da vista e fala ao ser desamparado,
  2. No suspiro final bradei — Maria! —
  3. E o corpo meu tombou, da alma deixado.
  1. “Direi verdade: aos vivos o anuncia.
  2. De Deus anjo tomando-me, o do inferno
  3. — “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.
  1. “Dele me usurpas o princípio eterno
  2. Por uma tênue lágrima fingida;
  3. Mas do seu corpo cabe-me o governo.
  1. “Bem sabes que nos ares recolhida
  2. Vaporosa umidade em chuva desce,
  3. Quando é do frio às regiões subida
  1. “Como quem com maldade o engenho tece,
  2. Névoas e vento acumulava, usando
  3. Da pujança infernal que lhe obedece.
  1. “Depois, o dia terminado estando,
  2. Do Pratomagno à serra, o vale envolve
  3. Em treva, ao céu a abóbada enlutando.
  1. “Túmido o ar, em catadupas volve,
  2. E a água que na terra não se entranha,
  3. Espumosa em torrentes se revolve.
  1. “Veloz os álveos aos arroios ganha,
  2. E para o régio rio se arrojando,
  3. Os óbices abate, que se assanha.
  1. “Junto à foz meu cadáver encontrando
  2. Levanta-o Arquiano impetuoso
  3. Ao Arno o impele, os braços desligando
  1. “Da cruz que fiz no transe doloroso.
  2. Por fundo e margens rola-o, sepultado
  3. Na areia o deixa, que arrastara iroso.” —
  1. — “Ah! quando à luz do mundo hajas tornado,
  2. Quando repouses da jornada extensa” —
  3. Foi por terceiro espírito impetrado:
  1. “De Pia recordando-te, em mim pensa;
  2. Siena fizera o que desfez Marema.
  3. Sabe-o quem me esposara e em recompensa
  1. No dedo pôs-me anel com rica gema.” —
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