OS passos do meu Guia acompanhando
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Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma multidão de almas que se aproximam deles, depois de ter percebido que Dante é vivo. São espíritos de pessoas que saíram da vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e perdoaram a seus inimigos.
- OS passos do meu Guia acompanhando,
- Dessas almas um pouco era distante,
- Quando uma, atrás de nós, o dedo alçando,
- — “Vede! A luz” — exclamou — “não é brilhante
- À sestra do que vai mais demorado;
- Pelo meneio a um vivo é semelhante.”
- Olhos volvi daquela voz ao brado,
- E as vi notar, de maravilha cheias,
- Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.
- — “Por que tanto, ó meu filho, assim te enleias?”
- Disse o Mestre. — “Por que deténs o passo?
- Acaso o murmurar daqui receias?
- “Segue-me: a vozes vãs ouvido escasso!
- Qual torre, inabalável sê, dos ventos
- À fúria opondo válido embaraço;
- “Quem firmeza não tem nos pensamentos,
- Do fim se aparta, a que alma se endereça
- E, assim, malogra, instável, seus intentos.
- — “Sigo-te!” — ao Mestre meu tornei depressa.
- Cumpria assim falar; meu voto incende
- O rubor, que ao perdão a falta apressa.
- Entanto por atalho a costa ascende
- Adiante de nós turba cantando
- Devota Miserere, e ao cimo tende.
- Ao ver que estava o corpo meu vedando
- Dos luminosos raios a passagem
- O canto suspendeu, rouco “oh!” soltando
- E dois dos seus em forma de mensagem
- Correndo contra nós assim falaram:
- “Quem sois, que assim fazeis esta viagem?”
- Disse Virgílio: — “Aos que vos enviaram
- Tornai que ao corpo do homem que estais vendo
- Vitais alentos inda não deixaram.
- “Se os passos, como cuido, estão detendo,
- Por ver-lhe a sombra, a causa é conhecida;
- Terão proveito, as honras lhe fazendo.” —
- Mais prontos que os vapores à descida
- Da noite, o ar sereno aluminando,
- Ou névoa, ao pôr do sol, do céu varrida,
- Partem, à grei de novo se ajuntando;
- Como esquadrão, que corre à desfilada,
- Voltam todos, a nós se arremessando.
- “Ao nosso encontro vem turba avultada;
- Pretensões todos têm” — disse-me o Guia
- — “Andando, os ouve; não convém parada.”
- — “Ó alma, que do céu vais à alegria
- No próprio corpo, em que feliz nasceste,
- Demora o passo um pouco” — a grei dizia,
- “De entre nós vê se alguém reconheceste
- Para ao mundo levares a notícia;
- Por que deter-te ainda não quiseste?
- “Morte a todos causou cruel nequícia;
- Pecamos sempre até que à final hora
- Do céu a luz se nos mostrou propícia.
- “Assim, contritos, perdoando, fora
- Fomos da vida, a paz com Deus já feita;
- De o ver desejo nos acende agora.”
- — “A feição vossa” — eu disse — “é tão desfeita,
- Que nenhum reconheço; mas, se acaso
- Ser útil posso no que a vós respeita,
- “Pela paz, a servir-vos já me emprazo,
- Que busco, deste sábio acompanhado,
- De mundo em mundo, no mais breve prazo.”
- “Cada qual” — me tornou — “está confiado
- Em ti, mister não há teu juramento,
- Se não faltar poder ao teu bom grado.
- “Aos outros me antecipo: ao rogo atento,
- Tu se fores à terra que demora
- Entre a Romanha e a que é de Carlo assento,
- “Aos meus em Fano compassivo exora
- Que com preces sufraguem-me piedosos
- Para o mal expurgar que fiz outrora.
- “Nasci lá, sofri golpes espantosos,
- Que a existência cortaram-me tão cara,
- De Antenórios nos planos pantanosos,
- “Onde o funesto fim nunca esperara.
- Assim o quis do Marquês d’Este a ira,
- Que o exício meu injusto aparelhara.
- “Ah! se, fugindo, me acolhesse a Mira
- Quando alcançou-me de Oriais perto,
- Eu fora inda hoje aonde se respira.
- “Mas, correndo ao paul, sem rumo certo,
- Caí, no ceno e juncos enleado:
- De sangue um lago fez meu peito aberto.”
- “Se for” — outro então disse — “executado
- Desejo que te impele ao alto monte,
- Sê por mim de piedade impressionado.
- “De Montefeltro fui e fui Buonconte;
- De mim Joana, e ninguém mais, não cura;
- Entre todos por isso abaixo a fronte.”
- — “Que força — que má ventura
- Tão longe te arrastou de Campaldino,
- Que se ignora onde tens a sepultura?”
- — “Oh!” — replicou-me — “Ao pé de Casentino
- Um rio passa que se chama Arquiano,
- Nascido lá sobre o Ermo, no Apenino.
- “De dor lá onde o perde o nome, insano,
- Cheguei: ao pé fugia, e, traspassado,
- O colo meu ensangüentava o plano.
- “Da vista e fala ao ser desamparado,
- No suspiro final bradei — Maria! —
- E o corpo meu tombou, da alma deixado.
- “Direi verdade: aos vivos o anuncia.
- De Deus anjo tomando-me, o do inferno
- — “Servo do Céu, mo tomas?” lhe bramia.
- “Dele me usurpas o princípio eterno
- Por uma tênue lágrima fingida;
- Mas do seu corpo cabe-me o governo.
- “Bem sabes que nos ares recolhida
- Vaporosa umidade em chuva desce,
- Quando é do frio às regiões subida
- “Como quem com maldade o engenho tece,
- Névoas e vento acumulava, usando
- Da pujança infernal que lhe obedece.
- “Depois, o dia terminado estando,
- Do Pratomagno à serra, o vale envolve
- Em treva, ao céu a abóbada enlutando.
- “Túmido o ar, em catadupas volve,
- E a água que na terra não se entranha,
- Espumosa em torrentes se revolve.
- “Veloz os álveos aos arroios ganha,
- E para o régio rio se arrojando,
- Os óbices abate, que se assanha.
- “Junto à foz meu cadáver encontrando
- Levanta-o Arquiano impetuoso
- Ao Arno o impele, os braços desligando
- “Da cruz que fiz no transe doloroso.
- Por fundo e margens rola-o, sepultado
- Na areia o deixa, que arrastara iroso.” —
- — “Ah! quando à luz do mundo hajas tornado,
- Quando repouses da jornada extensa” —
- Foi por terceiro espírito impetrado:
- “De Pia recordando-te, em mim pensa;
- Siena fizera o que desfez Marema.
- Sabe-o quem me esposara e em recompensa
- No dedo pôs-me anel com rica gema.” —