DE amor do pátrio ninho comovido
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O terceiro compartimento no qual agora chegam os Poetas é um campo de areia ardente, devastado por grandes chamas de fogo. Aí estão os violentos contra Deus, contra a natureza e contra a arte. Entre os primeiros está Capaneo, que desafia a Deus. Seguindo, Dante e Virgílio chegam a um regato sangüíneo. Deste e dos outros rios do Inferno Virgílio narra a origem misteriosa.
- DE amor do pátrio ninho comovido,
- Essas dispersas folhas reunindo,
- À sarça as dei, que tinha a voz perdido.
- Ao limite, dali, fomos seguindo,
- Em que parte o recinto co’ terceiro,
- Onde a justiça horrível stá punindo.
- Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro,
- Eu digo que à charneca então chegamos,
- De plantas nua em seu espaço inteiro.
- Da dor a selva a cerca dos seus ramos,
- Como o fosso a torneia sanguinoso:
- Ali, rente co’a borda, os pés firmamos.
- O plaino era tão árido e arenoso,
- Como o que de Catão os pés outrora
- Na jornada calcaram fadigoso.
- Ó vingança de Deus, quem não te adora
- Nos tremendos efeitos meditando,
- Que eu próprio olhei, que a minha voz memora!
- De almas nuas eu via infindo bando,
- Por modos diferentes torturadas,
- Miseráveis, mesquinhas pranteando.
- Jaziam sobre o dorso umas deitadas,
- Outras, dobrando os membros, se assentavam,
- Muitas andavam sempre aceleradas.
- Maior a turba destas se mostrava,
- Menor a que, prostrada no tormento.
- Maior dor nos lamentos denotava.
- Largas flamas com tardo movimento
- Choviam do areal em todo o espaço,
- Qual neve em serra, quando é mudo o vento.
- Na Índia sobre o exército, já lasso,
- Fogos cair viu Alexandre outrora,
- No chão ardendo livres de embaraço.
- Que aos pés no solo os calquem sem demora
- Suas falanges avisado ordena:
- Matá-los um por um fácil lhes fora.
- Assim baixava, para agravo à pena,
- Lume eterno que à areia se prendia,
- Como à isca a fagulha mais pequena.
- Cada qual sem repouso se estorcia,
- A um lado e a outro os braços revolvendo
- A cada chama, que do ar chovia.
- “Mestre” — falei — “que vais tudo vencendo,
- Somente exceto a legião furente,
- Que em Dite a entrada estava-nos tolhendo,
- “Diz quem seja a grã sombra, que não sente,
- Ao parecer, o incêndio, e não domado
- Pela chuva, já rápido, insolente?” —
- Reconhecendo o próprio condenado
- Que da minha pergunta fora objeto,
- “Morto sou qual fui vivo!” clama irado.
- “Que Jove canse o armeiro seu dileto,
- De quem tomou fremente o agudo raio
- Para em mim saciar rancor abjeto;
- “Que os seus cíclopes sintam já desmaio
- De Mongibello na oficina negra,
- Aos gritos — “Bom Vulcano, acode ou caio!” —
- “Como fez na peleja lá de Flegra;
- Que me fulmine de ódio e sanha cheio:
- No gozo da vingança em vão se alegra”. —
- Virgílio então, com voz, como não creio
- Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,
- Bradou-lhe: “Capaneu, pois no teu seio
- “Não mitiga a soberda a própria morte,
- Sofre mor pena; igual não há castigo
- Ao que a raiva te inflige desta sorte!” —
- Para mim se voltou; com gesto amigo
- Falou: — “Dos Reis que Tebas sitiaram
- Foi um; de Deus se declarara imigo.
- “Os crimes seus no inferno se agravaram;
- Já disse-lhe, as blasfêmias, os furores
- Digno prêmio em seu peito lhe deparam.
- “Vem agora após mim; pelos fervores
- Não caminhes da areia incandescente;
- Da selva ao longo evitas-lhe os ardores”. —
- Fomos andando, cada qual silente,
- Até onde jorrar do bosque eu via
- Rubro arroio, que lembro inda tremente.
- Do Bulicame qual o que saía,
- Das pecadoras em serviço usado:
- Tal pela adusta areia este corria.
- As margens e orlas são de cada lado
- Feitas de pedra e assim também seu leito:
- Caminho ali notei ao passo azado.
- “De quanto aqui te conhecer hei feito,
- Depois que atrás deixamos essa porta,
- A cujo ingresso todos têm direito,
- “Não se há mostrado à tua vista absorta
- Maravilha que iguale a desta veia,
- Em que a flama adurente fica morta”. —
- O Mestre diz e assim desejo ateia
- De rogar-lhe me preste esse alimento,
- Que excitado, o apetite haver anseia.
- “Do mar em meio jaz” — ouvi-lhe atento —
- “Destruído país, Creta afamada.
- Com seu rei foi do mal o mundo isento.
- “Alça-se ali montanha outrora ornada
- De fontes e verdor: chama-se Ida:
- Erma está, como cousa desprezada.
- “Foi ao filho pra berço preferida
- De Réia, que abafava o seu vagido
- Fazer mandando grita desmedida.
- “Nas entranhas do monte um velho erguido
- Está: voltando à Damieta as costas,
- Como a espelho, olha Roma embevecido.
- “De ouro faces e fronte são compostas,
- De pura prata são braços e peito,
- Enéias do busto as partes bem dispostas.
- “De ferro estreme tudo o mais foi feito,
- O pé direito exceto, que é de argila,
- Mas o corpo sustém, sendo imperfeito.
- “Salvo do ouro, do mais sempre destila
- De lágrimas por fenda crebro fio,
- Que fura a gruta e rápido desfila.
- “Aos negros vales vem correndo em rio,
- Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,
- Desce depois neste canal esguio
- “Até do inferno o fundo, aonde é fonte
- Do Cocito. O que o rio acaso seja
- Verás: mister não é que ora te conte”. —
- — “Se desde o nosso mundo ele serpeja,
- Dize, ó Mestre, a razão por que a torrente
- Só neste abismo lôbrego se veja”. —
- “É circular este lugar horrente,
- E posto haja vencido extenso trato,
- Descendo tu à esquerda, inteiramente
- “Não hás feito inda ao círc’lo o giro exato.
- Não revele o teu rosto maravilha.
- Novas cousas em vendo e estranho fato”. —
- Ainda eu perguntei: — “Por onde trilha
- O Flegetonte e o Letes? De um te calas,
- E do outro a veia é dessa origem filha”. —
- Tornou: — “Muito me agrada quanto falas;
- Da água rubra o fervor, porém, solvera
- Uma dessas questões, que me assinalas.
- “Do inferno fora o Letes ver espera:
- Na linfa sua as almas vão lavar-se
- Depois que a penitência o perdão gera”. —
- Disse depois: “É tempo de deixar-se
- A selva; os passos meus sempre acompanha,
- Pela margem caminho há para andar-se.
- Do fogo ali se extingue toda sanha”. —