PALAVRAS tais já proferido havia
145 versos · 52 de 100
Virgílio continua a falar sobre o amor. No entanto as almas dos preguiçosos vão passando diante dos Poetas, lembrando exemplos da virtude contrária à preguiça, e, depois, de punição da preguiça. Uma das almas dá-se a conhecer a Dante. É o abade de S. Zeno, em Verona. Dante cai em profundo sono.
- PALAVRAS tais já proferido havia
- O Vate excelso e, atento, me observava
- Por ver se eu satisfeito parecia;
- E eu, em maior sede me inflamava,
- Calando-me, entre mim dizia: “O excesso,
- Que nas perguntas há, talvez o agrava.” —
- Mas o sincero pai, sempre indefeso,
- Meu silêncio notando e o que o motiva
- Logo animou-me a lho fazer expresso.
- — “Minha vista” — falei — “tanto se aviva
- À luz do verbo teu, Mestre, que ao claro
- Vejo o que da razão tua deriva.
- — “Rogo-te, pois, ó pai beni’no e caro,
- Me ensines esse amor, de que descende
- Todo o mal, todo o bem ao mundo ignaro.” —
- — “Volve a mim” — disse — “a luz, que mais se acende
- No espírito e há de ser-te bem patente
- Quanto erra o cego que guiar pretende.
- “Alma criada para amar ardente,
- A tudo corre, que lhe dá contento,
- Se despertada do prazer se sente.
- “Do que é real o vosso entendimento
- Colhe imagens que em modo tal desprega,
- Que alma pra elas sente atraimento.
- “Se alma, enlevada, ao seu pendor se entrega,
- Esse efeito é amor, própria natura,
- Em que o prazer novo liame emprega.
- “E, como o fogo se ala para a altura
- Por sua forma, que a elevar-se tende
- Ao foco, onde o elemento seu mais dura,
- Assim pelo desejo a alma se acende,
- Ação esp’ritual que não se aquieta,
- Se não consegue a posse, que pretende.
- “Vê, pois, que da verdade excede a meta
- Quem acredita e aos outros assevera
- Que todo o amor de si é cousa reta.
- “Em gênero talvez se considera
- O amor sempre bom; mas todo selo
- É bom, inda que seja boa a cera?
- — “Se, te ouvindo” — tornei — “com mor desvelo
- Do que ser pode o amor fico inteirado,
- Dúvidas hei, que esclarecer anelo.
- “Pois que amor é de fora derivado,
- Pois que a alma de outra sorte não procede,
- No bem, no mal o mérito é frustrado.” —
- — “Dizer-te posso o que a razão concede” —
- Tornou — “do mais a Beatriz somente,
- Por ser ato de fé, solução pede.
- “Forma substancial, não depende
- Da matéria, porém com ela unida,
- Specífica virtude tem latente.
- “Só, quando atua, pode ser sentida;
- Denúncia do que seja dá no efeito,
- Como em planta a verdura indica a vida.
- “Das primeiras noções onde o conceito
- Nasceu? Donde apetites vêm primeiros,
- A que o homem no mundo está sujeito?
- “Como o instinto do mel na abelha, inteiros
- Em vós estão, louvor não merecendo,
- Nem censura também, ínscios obreiros.
- “Tudo desses pendores dependendo,
- Inata a faculdade é que aconselha,
- A porta do consenso em guarda tendo.
- “Em tal princípio a causa se aparelha,
- De que procede em vós merecimento:
- Repele o mau amor, no bom se espelha.
- “Os sábios, estudando o fundamento
- Das cousas, vendo inata a liberdade,
- Da moral vos tem dado o ensinamento.
- “E, supondo que por necessidade
- Nascesse todo o amor, que vos incende,
- Tendes para contê-lo potestade.
- “Nobre virtude ser Beatriz entende
- O livre arbítrio; e, quando lhe falares,
- A isto mesma a memória atento prende.” —
- Como alcanzia a flamejar nos ares,
- A lua à meia-noite, já tardia,
- Escurecia os outros luminares;
- E, contra o céu, caminho percorria,
- Por onde o sol vai pôr-se, quando a Roma,
- Entre Sardenha e Córsega, alumia.
- Havia a sombra ilustre, por quem toma
- A fama Ande à cidade mantuana,
- Do peso meu aliviado a soma:
- Quando eu, que explicação lúcida e plana
- Sobre as minhas questões tinha alcançado,
- Sinto que a mente sonolência empana.
- Desse quebranto súbito arrancado
- Por turba fui, que, após se encaminhando,
- A nós vinha com passo acelerado.
- E como o Ismeno e Asopo, outrora, em bando,
- Correr viam Tebanos ofegantes,
- Por noite Baco em alta voz cantando,
- A multidão, assim, dos caminhantes,
- De bom querer e justo amor tocados
- Pelo círc’lo apressavam-se anelantes.
- E, pois, tinham-se em breve apropinquado;
- Na carreira chorando afadigosa,
- Assim gritavam dois mais avançados:
- — “Maria corre ao monte pressurosa;
- César rende Marselha, e contra Ilerda
- Rápido voa à Espanha revoltosa. —
- — “Pressa; pressa! De tempo já sem perda!
- Pouco zelo não haja!” — outros clamaram —
- “Não refloresce a Graça nalma lerda!” —
- — “Vós, em que tais fervores se deparam,
- Que talvez negligência ides remindo
- Dos tempos, que no bem não se empregaram,
- “Dizei a um vivo (estais verdade ouvindo),
- Que partir-se pretende à nova aurora.
- Se é perto a entrada, donde vá subindo.”
- A voz do Mestre meu desta arte exora.
- Dos espíritos um lhe respondia:
- — “Vem conosco: não longe ela demora.
- “Anelo de ir avante nos desvia
- De detença: perdoa, por bondade,
- Se há, cumprindo um dever, descortesia.
- “De S. Zeno em Verona fui abade
- De Barba-roxa, o bom, sob o reinado
- De quem Milão se lembra sem saudade.
- “Alguém que à sepultura está curvado
- Há de em breve chorar esse mosteiro
- E o poder, com que o tinha dominado;
- “Pois, em dano ao pastor seu verdadeiro,
- Ao filho mal nascido, o cometera,
- No corpo horrendo, na maldade useiro.”
- Não sei se inda falou, se emudecera,
- De nós já velozmente se alongara,
- Mas ouvi-lo e notá-lo me aprazara.
- Então disse-me quem me guia e ampara:
- — “Volve-te, atenta nestes dois: correndo
- Nos lentos mordem com censura amara.” —
- — “Avante!” — os dois no couce vêm dizendo —
- Os que se abrir o mar viram, morreram,
- A herança do Jordão não recebendo,
- “E os que o filho de Anquises não quiseram
- Seguir até seu fim nas árdua jornada
- Fama e glória por gosto seu perderam.” —
- Depois, daquela grei stando afastada
- Tanto, que eu divisá-la não podia,
- De nova idéia a mente foi tomada,
- Outras surgindo após de romaria;
- E tanto de uma em outra vagueava.
- Que pouco a pouco o sono me invadia,
- E o pensamento em sonho se mudava.