MEUS olhos tanto inebriado haviam
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Chegando ao décimo compartimento, os Poetas ouvem os lamentações dos falsários, que aí são punidos com úlceras fétidas e enfermidades nauseantes. Em primeiro lugar estão os alquimistas, entre os quais Griffolino e Capocchio.
- MEUS olhos tanto inebriado haviam
- A turba enorme e o seu cruel tormento,
- Que alívio em pranto procurar queriam.
- “Por que assim” — diz Virgílio — “estás atento?
- Por que a vista dos tristes mutilados
- Prende-te ainda o duro sofrimento?
- “Tal não fizeste em antros já passados.
- Estão, se os resenhar é tenção tua,
- Por milhas vinte e duas derramados.
- “Já sob os nossos pés evolve a lua;
- É-nos escasso o tempo concedido:
- O que ainda hás de ver detença exclua”.
- “Talvez se houveras” — torno — “conseguido
- Ver o motivo, por que eu tanto olhava,
- Mais demora tivesses permitido”.
- Já se partia; e eu logo caminhava,
- Enquanto assim falava-lhe em resposta,
- Acrescentando: “Lá, naquela cava,
- “Onde a vista cuidosa estava posta,
- Da stirpe minha um spírito carpia
- Por culpa, a que mor pena está disposta”.
- “Não te confranjas mais” — responde o Guia —
- “Nos males, que padece, cogitando.
- De aí cuida; estar nesse antro merecia.
- “Ao pé da ponte o vi, que, te indicando,
- O dedo alçava em cominante gesto:
- Geri del Bello estavam-no chamando.
- “Eras absorto no semblante mesto
- Daquele que senhor foi de Altaforte:
- Quando atentaste, se ausentara presto”.
- “Ó Mestre” — eu disse — “a violenta morte
- Que ainda não punia justa vingança
- De quem naquela afronta era consorte,
- “Deu causa a usar, ao ver-me, essa esquivança
- Talvez e ao seu silêncio: assim pensando
- Maior piedade do seu mal me alcança”.
- Ao rochedo chegamos praticando,
- Donde outro vai divisa-se: o seu fundo
- Todo se vira, a luz não lhe faltando.
- Subidos do final claustro profundo
- De Malebolge à ponte, onde os conversos
- Já distinguia do recinto imundo.
- Lamentos e ais feriram-me diversos;
- De mágua tanta o peito assetearam,
- Que os ouvidos tapei aos sons adversos.
- Tão penetrante dor denunciaram,
- Como se da Marena e da Sardenha
- Enfermos no verão se incorporaram.
- De outros à turba, que remédio venha
- Nos hospitais buscar de Valdichiana.
- Odor surdia, igual ao que já tenha
- Corrupto corpo, e se gangrena o dana.
- Baixando à sestra até a riva extrema
- Mais claramente da caverna insana
- Então vimos o fundo, onde a Suprema
- Infalível Justiça, a raça ímpia
- Dos falsários em pena infinda prema.
- “De Egina quando o povo adoecia,
- E o ar maligno aos animais a morte
- Trazendo, os próprios vermes extinguia,
- Deserta sendo a terra de tal sorte
- Que às formigas (poetas o afirmavam)
- Deveu a antiga gente o alento forte:
- Cenas tais mais tristeza não causavam
- Do que almas ver, que essa prisão sombria
- Em rumas várias lânguidas juncavam.
- Qual sobre a espalda de outro se estendia,
- Qual sobre o ventre seu, qual se arrastando
- Na dolorosa estrada se estorcia.
- Silentes, passo a passo caminhando,
- Vemos, ouvimos míseros prostrados,
- Em vão para se erguerem se esforçando.
- Sentados dois, um no outro recostados,
- Quais torteiras que juntas se aquecessem,
- Vi do alto aos pés de pústulas manchados
- Os criados, que os amos seus apressem,
- Ou que estejam velando de mau grado
- Almofaça não vi que assim movessem,
- Como cada um se agita acelerado,
- Com implacáveis unhas se mordendo,
- De raivoso prurido atormentado.
- Iam da pele as crostas abatendo,
- Como a faca do sargo arranca a escama
- Ou de peixe, na casca mais horrendo.
- “Ó tu” contra um dos dois Virgílio exclama,
- Que os dedos teus convertes em tenazes
- Por desmalhar do corpo a extrema trama,
- “Diz-me se entre estas almas contumazes
- Existe algum Latino; eternamente
- Sejam-te as unhas de servir capazes!”
- “Latinos somos” — torna diligente
- Um dos dois padecentes lacrimoso,
- “Mas tu quem és? Em declarar consente”.
- — “Eu sou que” — diz Virgílio ao desditoso
- “De círc’lo em círc’lo este homem vivo guia
- Por lhe mostrar o abismo pavoroso”.
- Já cessa o mútuo arrimo, que os unia:
- A mim volveu-se cada qual tremendo;
- Turba imitou-os, que em redor ouvia.
- Acercou-se-me o Guia assim dizendo:
- “Quanto quiseres tu agora dize”.
- Eu logo comecei lhe obedecendo:
- “Nunca a memória vossa finalize!
- Na primeira mansão da humana raça!
- Mas por sóis numerosos se abalize!
- “Quem sois? E donde? De o dizer a graça
- Fazei: a vossa pena, imunda é certo,
- De responder-nos pejo vos não faça.
- “De Arezzo fui” disse um “de Siena Alberto
- Morte me deu nas chamas, truculento,
- Por feito a que não fora o inferno aberto.
- “Dissera, em gracejar só pondo o intento.
- “Alçar-me aos ares posso velozmente”.
- Essa arte, por ter curto o entendimento,
- “Houve ele de saber desejo ardente.
- Como o não fiz um Dédalo, à fogueira
- Mandou-me quem seu pai foi certamente.
- “Mas das cavas caí na derradeira
- Por sentença de Minos rigorosa:
- Foi meu crime a alquimia traiçoeira”.
- E ao Vate eu disse: “Nunca tão vaidosa
- Gente, pôde alguém ver como a de Siena?
- Nem a de França há sido tão sestrosa!”
- O segundo leproso então me acena
- Dizendo: “Salvo Stricca, homem poupado,
- Que todo o excesso em desprender condena!
- “Salvo Nicoló, aquele que inventado
- Do cravo tinha a rica especiaria,
- O seu uso deixando enraizado!
- “Salvo Caccia de Ascian e a companhia,
- Com quem vinhas e bosques esbanjava
- E o Abbagliato as chanças esgrimia!
- “Para que saibas quem desta arte agrava
- Contra os de Siena o teu severo asserto,
- No meu triste semblante os olhos crava.
- “De que ora vês Capocchio já estás certo,
- Que alquimista, os metais falsificara,
- Sabes como eu, se em recordar acerto,
- Natura, hábil bugio, arremedara”.