SE usasse rimas ásperas, rouquenhas
139 versos · 32 de 100
Os dois Poetas se encontram no círculo, em cujo pavimento de duríssimo gelo estão presos os traidores. O círculo é dividido em quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irmão, estão os traidores do próprio sangue; na Antenora, de Antenor, troiano que ajudou os Gregos a conquistar Tróia, os traidores da pátria e do próprio partido; na Ptoloméia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu, os traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores dos benfeitores e dos seus senhores. Dante fala com vários danados, enquanto atravessam o gelo procedendo para o centro.
- SE usasse rimas ásperas, rouquenhas,
- Próprias do poço lôbrego e tristonho,
- Que do inferno sustém as outras penhas,
- Melhor idéia do lugar medonho
- Dera; mas tal vantagem me falece.
- O meu conceito, pois, tímido exponho.
- É árdua empresa, em que o ânimo esmorece
- O centro descrever do mundo inteiro:
- Para empenho infantil ser não parece.
- Das Musas se ajudar poder fagueiro,
- Como a Anfião em Tebas o mostraram,
- Fiel serei dizendo e verdadeiro.
- Ó malfadada turba, a quem tocaram
- Deste abismo os castigos, bruto gado
- Sendo, fados melhores te aguardaram.
- Descidos nós ao poço negregado
- Das plantas muito abaixo do gigante,
- O alto muro mirava-lhe espantado,
- Quando ouvi: “Tem cuidado, ó caminhante!
- Não calques de irmãos teus desventurados
- As frontes”. Eu, voltando-me, adiante
- E sob os pés, de um lago vi gelados
- Os planos tanto, que os dizer podia,
- Não de água, de cristal, porém, formados.
- Do Danúbio a corrente não seria
- Tanto em Áustria no inverno enrijecida,
- Nem do Tanais, na zona sempre fria.
- Do lago sobre a face empedernida
- Caísse ou Tambernich ou Pietrana:
- Não fora ao peso enorme combalida.
- Qual rã, que no paul coaxando, ufana
- Um pouco emerge, enquanto a camponesa
- Sonhando está que a respigar se afana:
- Tais gemiam as sombra na frieza
- Té a cintura lívidas, batendo,
- Como a cegonha, os queixos com presteza.
- Para o seio a cabeça lhes pendendo,
- Do frio a boca indícios claros dava,
- Nos olhos a tristeza está-se vendo.
- Quando atentei no quanto em roda estava,
- Duas vi aos meus pés, em tal abraço,
- Que, travado, o cabelo se enleava.
- “Quem sois que os peitos nesse estreito laço
- Apertais?” — perguntei. Então, voltando
- Os colos para trás, um curto espaço
- Me encararam; porém dos olhos quando
- Lhes brotavam as lágrimas, a neve
- Cerrou-os entre os cílios as coalhando.
- Nunca dois lenhos tanto unidos teve
- Cavilha: eles, de irados, se investiram,
- Quais capros, que a marrar o furor leve.
- Terceiro, a quem, geladas lhe caíram
- As orelhas, com rosto baixo fala:
- “Por que teus olhos sôfregos nos miram?
- “O par desejas conhecer, que cala?
- Próprio lhes fora e ao genitor Alberto
- O vale, onde o Bisênzio faz escala.
- “De um só ventre nasceram; tu, por certo,
- Não acharás mais di’nos em Caína,
- De ter de gelo o vulto seu coberto,
- “Nem esse, a quem de Artus destra assassina
- De um bote o peito e a sombra transpassara;
- Nem Focácia e o que a fronte agora inclina,
- “A vista me tolhendo, e se chamara
- Mascheroni Sassol, bem conhecido:
- Se és Toscano, esse nome te bastara.
- “Fique, por vozes escusar, sabido
- Que Pazzi eu sou e que, em Carlin chegando,
- Serei por menos criminoso havido”.
- Mil outros via roxos tiritando:
- Desde então de arrepios sou tomado
- Ante gélidos vaus, este lembrando,
- E o centro demandando, em que firmado
- Do universo gravita todo o peso,
- Trêmulo havia a treva eterna entrado,
- Eis, sem querer, da sorte ou por desprezo,
- Entre tantas cabeças caminhando,
- A face de um calquei no gelo preso.
- “Por que me pisas?” reclamou chorando,
- “De Monte Aperti ao feito por vingança
- Inda me estás desta arte molestando?
- “Mestre, espera-me aqui” — disse — “Me lança
- Em dúvida este mau: solvê-la quero.
- Eu depois correrei, se houver tardança”.
- Parou; e ao pecador falei, que fero,
- Duras blasfêmias proferia agora:
- “Quem és tu, que me increpas tão severo?”
- “E tu mesmo quem és, que na Antenora”
- Tornou — “dessa arte as faces me espezinhas?
- Um vivo, certo, menos cru me fora”.
- “Sou vivo e posso entre as memórias minhas
- Do nome teu apregoar a fama”
- Respondi — “se te aprazem louvaminhas”.
- “Só quer o olvido quem te fala” — exclama
- “Vai-te! De sobra já me estás molesto.
- Aqui não cabe da lisonja a trama”.
- Travei da nuca ao pecador infesto
- E disse: — “Ou perderás todo o cabelo,
- Ou quem tu foste me declara presto!”
- “Mil vezes podes arrancar-me o pêlo,
- De ver-me a face não terás o gosto
- E de saber qual foi meu nome e apelo”.
- As mãos lhe havia no cabelo posto;
- Da guedelha uma parte arrepelara:
- Ganindo ele abaixava sempre o rosto,
- Quando outro brada: “Ó, Boca, isso não pára?
- Pois os queixos bater não te é bastante?
- Já lates! Que demônio em ti dispara?”
- “Não mais, ímpio traidor” — no mesmo instante
- Respondo — “exijo; o que de ti stou vendo
- Contarei por te ser mais infamante”.
- “Vai! Se saíres deste abismo horrendo,
- Quanto queiras refere, do apressado,
- Que de língua assim foi, não te esquecendo.
- “Ouro chora, que a França lhe há doado.
- Eu vi — podes dizer — Boso Duera
- De outros muitos no gelo acompanhado.
- “Se perguntarem quem aqui mais era,
- Olha e terás ao lado Beccaria,
- A quem Florença degolar fizera.
- “Gian del Soldanier, há pouco eu via
- Além com Ganellon e Tribaldello.
- Que abriu Faenza, enquanto se dormia”.
- Deixâmo-lo; mas súbito de gelo
- Postos em furna vi dois condenados:
- Cabeça de uma a de outra era cabelo.
- Como a pão se agarrando os esfaimados,
- Por cima um no outro os dentes aferrava
- Onde a cerviz e o crânio estão ligados.
- Qual Tideu, que a dentadas lacerava
- De Menalipo a fronte enraivecido,
- Ele o cérebro e os ossos mastigava.
- “Tu, que, de ódio tão sevo possuído,
- Te encarniças feroce no inimigo,
- “Dize — exclamo — por que foi produzido.
- “Se eu souber que a justiça está contigo
- E houver da culpa e réu conhecimento,
- No mundo a compensar-te ora me obrigo,
- Se não perder a língua o movimento”.