QUAL a Climene explicações rogava
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Dante pede a Cacciaguida que lhe declare qual sorte lhe está reservada. Este prediz-lhe o exílio, a perseguição pelos inimigos e o seu refúgio na corte dos Scaligeros, Exorta-o a falar do que viu e ouviu na sua viagem, sem receio de ofender ninguém.
- QUAL a Climene explicações rogava
- De quanto em desconcerto próprio ouvira
- O que austeros depois os pais tornava,
- Tal fiquei, tal efeito pressentira
- Com Beatriz a santa luz brilhante,
- Que da Cruz eu da altura descer vira.
- E disse Beatriz: — “Desse anelante
- Desejo a flama exibe e nela esteja
- Ao que tens na alma imagem semelhante,
- “Não, por que mais ao claro em ti se veja,
- Mas porque, sendo a sede revelada.
- Prestada em proporção água te seja.” —
- — “Ó cara estirpe minha à Glória alçada! —
- Como conhecem as terrenas mentes
- Não dar a obtusos dois triâng’lo entrada,
- “Assim vês tu as cousas contingentes
- Lá no porvir, o Centro contemplando,
- A quem todos os tempos stão presentes;
- “Em quanto eu a Virgílio acompanhando,
- Subia o monte, onde ao pecado há cura,
- E também pelo inferno penetrando,
- “Sobre a existência minha ouvi futura
- Agras palavras, posto que me sinta
- Impertérrito aos golpes da ventura.
- “Folgara em ter ciência bem distinta
- Dos reveses, que a sorte me prepara:
- Menos mogoa a seta ao que a pressinta.”
- Ao spírito, que, há pouco me falara,
- Meu desejo hei desta arte declarado,
- Como a senhora minha me ordenara.
- Sem ambages, que aos homens enviscado
- Tinham, antes de Deus ser o Cordeiro,
- Que os pecados remiu, sacrificado,
- Mas em preciso estilo e verdadeiro,
- Logo tornou-me o paternal afeito,
- Velado e transparente em seu luzeiro:
- — “A contingência, que do espaço estreito
- Da matéria os limites não transcende,
- Toda se pinta no eternal aspeito.
- “Necessidade, entanto, não a prende,
- Como não prende a vista em que se espelha
- A nau, que as águas rápida descende.
- “De lá bem como se transmite à orelha
- Doce harmonia de órgão, refletido
- O tempo me é que a ti já se aparelha.
- “Qual de Atenas Hipólito há partido
- Pela perfídia da madrasta ímpia,
- Tal deixarás Florença perseguido.
- “Assim se quer e a trama principia;
- Será em breve executado o plano
- Lá onde a Cristo vendem cada dia.
- “A culpa o mundo a quem padece o dano
- Dará; mas terá pena merecida,
- Da verdade em vingança, o algoz insano.
- “Deixarás toda a causa a mais querida,
- Chaga primeira de tormentos cheia,
- Do desterro pelo arco produzida.
- “Sentirás quanto amarga; quanto anseia
- O sal de estranho pão; que é dura estrada
- Subir, descer degraus da escada alheia.
- “Tua angústia há de ser mais agravada,
- Te acompanhar no val do exílio vendo
- Ignóbil gente, estólida malvada.
- “Ingrato, louco e mau te acometendo
- O bando se há de unir: será corrido
- Ele, não tu, o opróbrio merecendo.
- “Seu bestial instinto conhecido
- Terão seus feitos; glória consumada
- Terás; tu só formando o teu partido.
- “Te há de ser acolhida franqueada
- Primeira pelo exímio e grã Lombardo
- Que por brasão tem Águia sobre Escada.
- “Terá contigo tão cortês resguardo,
- Que, o rogo prevenindo, o dom se apresse,
- Que sói entre outros, se mostrar mais tardo.
- “Verás com ele o que ao nascer merece
- Tanto deste astro bélico a influência,
- Que a fama a glória ao nome lhe engrandece.
- “Inda ignorada jáz tanta excelência:
- Só voltas nove em torno lhe tem dado
- Estas esferas na anual cadência.
- “Mas antes que o Gascão tenha enganado
- Henrique excelso já fará patentes
- De ouro o desdém e o ânimo esforçado.
- “Serão grandezas suas tão fulgentes,
- Que inimigos malgrado as contemplando,
- Terão de as proclamar por preminentes.
- “Nele confia, o bem dele esperando;
- A sorte mudará de muita gente,
- Ricos, mendigos condição trocando.
- “Dele o que eu digo inculcarás na mente,
- Sem narrá-lo.” — E prozeas predizia,
- Incríveis inda a quem lhe for presente. —
- — “Eis, filho, o comentário” — prosseguia —
- “Do que se foi já dito; eis a emboscada,
- Que num período breve se encobria.
- “Mas por ti dos vizinhos invejada
- Não seja a sorte; prolongada a vida,
- Verás sua perfídia castigada.” —
- Depois que essa alma santa concluída,
- Calcando-se, mostrou já ter a trama
- Da tela, que eu lhe oferecera urdida,
- Com tom de voz falei de homem, que clama
- Por bom conselho, ao recear perigo,
- De quem, sábio e discreto, o bem de outro ama.
- — “Vejo, ó pai, que, investindo, o tempo imigo
- Contra mim corre para o golpe dar-me,
- Mais grave, porque opor-me não consigo.
- “De prudência, portanto, é bem que me arme;
- Não suceda, ao perder pátria guarida,
- Dos meus versos por causa outra faltar-me.
- “No mundo, onde em perpétua dor se lida,
- Da montanha subindo o excelso cume,
- Donde elevou-me Beatriz querida,
- “E depois pelo céu de lume em lume
- Cousas tais aprendi, que, se as redigo,
- Travo terão a muitos de azedume.
- “Se da verdade eu for remisso amigo,
- Morrer temo dos homens pelo olvido,
- Que o tempo de hoje hão de chamar antigo.” —
- A luz, onde o tesouro era escondido,
- Que eu achara, se fez tão coruscante,
- Como o sol de áureo espelho refletido.
- E disse: — “A consciência vacilante
- Por próprios atos ou vergonha alheia
- Teu falar haverá por cruciante.
- “Mas deves repelir mentira feia;
- Toda a tua visão faz manifesta,
- Coce-se a pele, que é de lepra cheia.
- “Ao primeiro sabor será molesta
- Tua palavra; mas vital sustento
- Deixará depois, quando for digesta.
- “Há de o teu braço assemelhar-se ao vento,
- Que ao mais soberbo cimo ousado investe;
- Há de isto ao nome teu dar lustre e aumento.
- “Ante os olhos aqui, no céu, tiveste,
- No santo monte e lá no val das dores
- Almas, que a fama com seu brilho veste.
- “Pois de ouvintes o ânimo ou leitores
- Preço não dá ao exemplo derivado
- De origem vil, sem nota, sem louvores,
- Nem a outro argumento mal fundado.” —