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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XV
PurgatórioXV

QUANTO caminho faz da tércia hora

145 versos · 49 de 100


Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento. Aí Dante, em êxtase, vê exemplos de mansuetude e misericórdia. Voltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e impede a visão.

  1. QUANTO caminho faz da tércia hora,
  2. No giro seu, a luminosa esfera,
  3. — Sempre a mover-se qual criança — à aurora,
  1. Tanto, para acabar o curso, espera
  2. O sol, e para dar à tarde entrada:
  3. Lá vésperas, aqui meia-noite era.
  1. De luz me estava a face então banhada;
  2. Porque, em torno à montanha prosseguindo,
  3. Do ocaso em direção ia a jornada,
  1. Quando, mais vivo resplendor fulgindo,
  2. Ofuscado fiquei mais do que dantes:
  3. Desse portento a ação pasmei sentindo.
  1. Acima de meus olhos, por instantes,
  2. As mãos alcei — sombreiro, que antepara
  3. O mor excesso aos raios deslumbrantes.
  1. Assim como de espelho ou linfa clara
  2. Ressalta a luz de encontro à oposta parte,
  3. Subindo logo após, como baixara;
  1. Da linha vertical não se disparte,
  2. Uma distância igual sempre mantendo,
  3. Como nos mostra experiência e arte:
  1. Em frente à luz, assim, se refrangendo,
  2. Tão penetrante a vista me feria,
  3. Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.
  1. “Qual é” — ao Mestre amado então dizia —
  2. Aquele objeto, que me ofusca tanto
  3. E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” —
  1. — “Que inda te ofusque não te mova espanto
  2. A celeste família” — me há tornado: —
  3. “Falar-te vem um mensageiro santo.
  1. “A veres com delícia aparelhado
  2. Serás em breve um lume refulgente,
  3. Quanto ser pode ao ente humano dado.” —
  1. Acercados ao anjo, alegremente
  2. Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa
  3. Subida nesta escada está patente.”
  1. Andando, atrás cantar em voz donosa
  2. Beati Misericordes nós ouvimos
  3. E “Exulta na vitória gloriosa”,
  1. Para cima, portanto, nós subimos;
  2. E eu das vozes do Vate cogitava
  3. Colher proveito, enquanto sós nos imos.
  1. E, me voltando, assim lhe perguntava:
  2. “O que Guido del Duca nos dizia,
  3. Quando em bens não partíveis nos falava?” —
  1. — “Do seu vício pior” — tornou — “sabia
  2. Os danos; não se estranhe, se o acusando,
  3. Do mal que fazer possa prevenia;
  1. “Porque, do mundo os bens vós desejando,
  2. A que partilha todo o apreço tira,
  3. Arde a inveja, suspiros provocando.
  1. Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,
  2. Levantando-se o anelo àquela altura,
  3. Esse temor no peito voz expira.
  1. “Tanto mais lá cad’um goza ventura,
  2. Quanto por muitos ela mais se estende,
  3. Quanto mais caridade lá se apura.” —
  1. — “O entendimento” — eu digo — “ora compreende
  2. Menos do que antes de eu te haver falado;
  3. À mente ora mor dúvida descende.
  1. “Como um bem, que é de muitos partilhado,
  2. A cada possessor dá mais riqueza
  3. Do que se a posse fora apropriado?” —
  1. — “Teu spírito” — replica — “na rudeza
  2. Das cousas terreais stando imergido,
  3. Vê trevas onde a luz tem mais clareza,
  1. “Esse inefável bem, no céu fruído,
  2. Infindo, para o amor, correndo desce,
  3. Qual raio a corpo lúcido e polido.
  1. “Se ardor acha mais vivo, mais se of’rece;
  2. Quanto mais caridade está fulgindo,
  3. Virtude eterna mais sobre ela cresce.
  1. “Quanto mais vai a multidão subindo,
  2. Mais amar podem, mais a amor se aplicam,
  3. Bem como espelho, um no outro refletindo.
  1. “Se persistindo as dúvidas te ficam,
  2. Hás de ver Beatriz: da sábia mente
  3. Razão escutarás, que tudo explicam.
  1. “Para apagares, pois, sê diligente.
  2. As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:
  3. Há de cerrá-las contrição pungente.” —
  1. Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo —
  2. No círculo eis penetro imediato:
  3. Calei-me, a vista alucinada tendo.
  1. Julgava então, de uma visão no rapto,
  2. Extático, que em templo se mostrava
  3. Multidão grande, de oração no ato.
  1. Com piedoso semblante, à entrada estava
  2. Meiga matrona. — “Ó filho meu querido,
  3. Por que assim procedeste?” — interrogava.
  1. “Eu e teu pai, com ânimo dorido,
  2. Te buscamos.” — E como se calara,
  3. Logo a visão fugiu-me do sentido.
  1. Depois de outra no rosto se depara
  2. Pranto acerbo, que mágoas anuncia
  3. De quem de ira no incêndio se inflamara.
  1. “Se mandas na cidade” — assim dizia —
  2. “Por cujo nome os deuses contenderam
  3. E onde a luz da ciência se irradia,
  1. “Pune os braços, que ímpios, se atreveram,
  2. Pisístrato, a estreitar a filha tua!” —
  3. Ele, a quem vozes tais não comoveram,
  1. Tranqüilo respondia à esposa sua:
  2. “O que faremos a quem mal nos queira,
  3. Se ira ao amor corresponder tão crua?”
  1. Vi depois multidão, que a raiva aceira:
  2. A pedradas mancebo assassinava,
  3. Bradando — morra! morra! — carniceira.
  1. A dolorida fronte debruçava,
  2. Já mal ferido, o mártir para a terra:
  3. Portas ao céu os olhos seus tornava,
  1. Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,
  2. Que aos seus perseguidores perdoasse:
  3. Riso piedoso os olhos lhe descerra.
  1. Quando em minha alma o êxtase desfaz-se,
  2. Conheci que no sonho aparecia,
  3. Não da ficção mas da verdade a face.
  1. Virgílio, a quem talvez eu parecia
  2. Homem, que o sono deixa de repente,
  3. — “Por que estás vacilante?” — me inquiria.
  1. “Tens meia légua andado certamente
  2. Com titubante pé, de olhos caídos,
  3. Como quem desse ao vinho ou sono a mente.” —
  1. — “Vou expor, meu bom mestre, aos teus ouvidos” —
  2. Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram,
  3. Quando os joelhos tinha enfraquecidos.”
  1. — “Se másc’ras cento a face te ocultaram” —
  2. Disse Virgílio — “ocultos não seriam
  3. Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram.
  1. “As imagens, que hás visto, te induziam
  2. Águas da paz a receber no peito,
  3. Que as fontes perenais dos céus enviam.
  1. “Não perguntara, como quem de feito
  2. Somente vê por olhos, obcecados
  3. Quando o corpo da morte jaz no leito;
  1. “Mas por serem teus pés mais apressados:
  2. Excitar assim cumpre os preguiçosos,
  3. Que se esquivam à ação stando acordados.” —
  1. Nas horas vespertinas pressurosos
  2. Andávamos, os olhos alongando,
  3. Do sol cadente aos raios luminosos,
  1. Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.
  2. Se condensa ante nós, qual noite, escuro;
  3. Abrigo ali de todo nos faltando,
  1. A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.
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