QUANTO caminho faz da tércia hora
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Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento. Aí Dante, em êxtase, vê exemplos de mansuetude e misericórdia. Voltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e impede a visão.
- QUANTO caminho faz da tércia hora,
- No giro seu, a luminosa esfera,
- — Sempre a mover-se qual criança — à aurora,
- Tanto, para acabar o curso, espera
- O sol, e para dar à tarde entrada:
- Lá vésperas, aqui meia-noite era.
- De luz me estava a face então banhada;
- Porque, em torno à montanha prosseguindo,
- Do ocaso em direção ia a jornada,
- Quando, mais vivo resplendor fulgindo,
- Ofuscado fiquei mais do que dantes:
- Desse portento a ação pasmei sentindo.
- Acima de meus olhos, por instantes,
- As mãos alcei — sombreiro, que antepara
- O mor excesso aos raios deslumbrantes.
- Assim como de espelho ou linfa clara
- Ressalta a luz de encontro à oposta parte,
- Subindo logo após, como baixara;
- Da linha vertical não se disparte,
- Uma distância igual sempre mantendo,
- Como nos mostra experiência e arte:
- Em frente à luz, assim, se refrangendo,
- Tão penetrante a vista me feria,
- Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.
- “Qual é” — ao Mestre amado então dizia —
- Aquele objeto, que me ofusca tanto
- E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?” —
- — “Que inda te ofusque não te mova espanto
- A celeste família” — me há tornado: —
- “Falar-te vem um mensageiro santo.
- “A veres com delícia aparelhado
- Serás em breve um lume refulgente,
- Quanto ser pode ao ente humano dado.” —
- Acercados ao anjo, alegremente
- Nos disse: — “Aqui passai, menos penosa
- Subida nesta escada está patente.”
- Andando, atrás cantar em voz donosa
- Beati Misericordes nós ouvimos
- E “Exulta na vitória gloriosa”,
- Para cima, portanto, nós subimos;
- E eu das vozes do Vate cogitava
- Colher proveito, enquanto sós nos imos.
- E, me voltando, assim lhe perguntava:
- “O que Guido del Duca nos dizia,
- Quando em bens não partíveis nos falava?” —
- — “Do seu vício pior” — tornou — “sabia
- Os danos; não se estranhe, se o acusando,
- Do mal que fazer possa prevenia;
- “Porque, do mundo os bens vós desejando,
- A que partilha todo o apreço tira,
- Arde a inveja, suspiros provocando.
- Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,
- Levantando-se o anelo àquela altura,
- Esse temor no peito voz expira.
- “Tanto mais lá cad’um goza ventura,
- Quanto por muitos ela mais se estende,
- Quanto mais caridade lá se apura.” —
- — “O entendimento” — eu digo — “ora compreende
- Menos do que antes de eu te haver falado;
- À mente ora mor dúvida descende.
- “Como um bem, que é de muitos partilhado,
- A cada possessor dá mais riqueza
- Do que se a posse fora apropriado?” —
- — “Teu spírito” — replica — “na rudeza
- Das cousas terreais stando imergido,
- Vê trevas onde a luz tem mais clareza,
- “Esse inefável bem, no céu fruído,
- Infindo, para o amor, correndo desce,
- Qual raio a corpo lúcido e polido.
- “Se ardor acha mais vivo, mais se of’rece;
- Quanto mais caridade está fulgindo,
- Virtude eterna mais sobre ela cresce.
- “Quanto mais vai a multidão subindo,
- Mais amar podem, mais a amor se aplicam,
- Bem como espelho, um no outro refletindo.
- “Se persistindo as dúvidas te ficam,
- Hás de ver Beatriz: da sábia mente
- Razão escutarás, que tudo explicam.
- “Para apagares, pois, sê diligente.
- As chagas cinco, que inda em ti stou vendo:
- Há de cerrá-las contrição pungente.” —
- Quando eu ia dizer — Mestre, compreendo —
- No círculo eis penetro imediato:
- Calei-me, a vista alucinada tendo.
- Julgava então, de uma visão no rapto,
- Extático, que em templo se mostrava
- Multidão grande, de oração no ato.
- Com piedoso semblante, à entrada estava
- Meiga matrona. — “Ó filho meu querido,
- Por que assim procedeste?” — interrogava.
- “Eu e teu pai, com ânimo dorido,
- Te buscamos.” — E como se calara,
- Logo a visão fugiu-me do sentido.
- Depois de outra no rosto se depara
- Pranto acerbo, que mágoas anuncia
- De quem de ira no incêndio se inflamara.
- “Se mandas na cidade” — assim dizia —
- “Por cujo nome os deuses contenderam
- E onde a luz da ciência se irradia,
- “Pune os braços, que ímpios, se atreveram,
- Pisístrato, a estreitar a filha tua!” —
- Ele, a quem vozes tais não comoveram,
- Tranqüilo respondia à esposa sua:
- “O que faremos a quem mal nos queira,
- Se ira ao amor corresponder tão crua?”
- Vi depois multidão, que a raiva aceira:
- A pedradas mancebo assassinava,
- Bradando — morra! morra! — carniceira.
- A dolorida fronte debruçava,
- Já mal ferido, o mártir para a terra:
- Portas ao céu os olhos seus tornava,
- Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,
- Que aos seus perseguidores perdoasse:
- Riso piedoso os olhos lhe descerra.
- Quando em minha alma o êxtase desfaz-se,
- Conheci que no sonho aparecia,
- Não da ficção mas da verdade a face.
- Virgílio, a quem talvez eu parecia
- Homem, que o sono deixa de repente,
- — “Por que estás vacilante?” — me inquiria.
- “Tens meia légua andado certamente
- Com titubante pé, de olhos caídos,
- Como quem desse ao vinho ou sono a mente.” —
- — “Vou expor, meu bom mestre, aos teus ouvidos” —
- Tornei — “quanto os meus olhos contemplaram,
- Quando os joelhos tinha enfraquecidos.”
- — “Se másc’ras cento a face te ocultaram” —
- Disse Virgílio — “ocultos não seriam
- Pensamentos, que, há pouco, te enlevaram.
- “As imagens, que hás visto, te induziam
- Águas da paz a receber no peito,
- Que as fontes perenais dos céus enviam.
- “Não perguntara, como quem de feito
- Somente vê por olhos, obcecados
- Quando o corpo da morte jaz no leito;
- “Mas por serem teus pés mais apressados:
- Excitar assim cumpre os preguiçosos,
- Que se esquivam à ação stando acordados.” —
- Nas horas vespertinas pressurosos
- Andávamos, os olhos alongando,
- Do sol cadente aos raios luminosos,
- Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.
- Se condensa ante nós, qual noite, escuro;
- Abrigo ali de todo nos faltando,
- A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.