FITAVA os olhos sobre a rama verde
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No sexto compartimento estão as almas dos gulosos. Elas são atormentadas pela fome e pela sede; Dante descreve a sua horrível magreza. O Poeta reconhece o seu parente Forense Donati, o qual louva a sua viúva, Nella, e repreende a impudicícia das mulheres florentinas.
- FITAVA os olhos sobre a rama verde,
- Qual caçador, que após um passarinho,
- Correndo, parte da existência perde.
- Quando o que me era mais que pai: — “Filhinho,
- O tempo” — disse — “que nos está marcado,
- Quer mais útil emprego. Eia! a caminho!” —
- Voltando o rosto, a passo acelerado
- Os sábios sigo e, atento ao que falavam,
- Não me sentia, andando, fatigado.
- Plangentes vozes súbito entoavam
- Labia, Domine, mea por maneira,
- Que piedade e prazer me provocaram.
- — “Do que ouço”— disse então — “ó Pai, me inteira.”—
- — “Almas” — tornou — “talvez que o meio tentam,
- Que o peso à sua dívida aligeira.” —
- Peregrinos solícitos que atentam
- Só na jornada, achando estranha gente,
- Vontam-se apenas, mas o passo alentam:
- Tal após nós vem turba diligente;
- Em devoto silêncio se acercava;
- Olhou-nos e afastou-se prestamente.
- Os olhos encovados nos mostrava,
- Pálida a face e o rosto descarnado,
- Sobre os ossos a pele se estirava.
- Não creio que Erisicton devastado
- Tanto da fome horrível estivesse
- Quando das forças viu-se abandonado.
- Eu cogitava: — “O povo aqui padece,
- Que Solima perdeu, quando Maria
- Carnes comeu ao filho, que perece.” —
- Cad’olho anel sem pedra parecia:
- O que na humana face lesse “omo”
- Bem claro o M aqui distinguiria.
- Quem crer pudera, não sabendo como,
- Efeito de desejo ser, nascido
- Do frescor de água, junto a odor de pomo?
- Atônito inquiria o que haja sido
- De tal fome a razão, não manifesta,
- Que tal magreza tenha produzido,
- Eis lá da profundez da sua testa
- Uma alma olhos volvia e me encarava,
- Gritando: — “Mereci graça como esta?” —
- Quem fora o gesto seu não me indicava;
- Mas tive pela voz prova segura
- Do que o aspecto seu não revelava.
- Foi súbito clarão em noite escura,
- Do rosto avivou traços deformados
- Forese conheci nessa figura.
- — “Ai! não fiquem teus olhos assombrados”
- — Dizia — “a lepra ao ver que me descora,
- E estes ossos mesquinhos, descarnados!
- “Dize a verdade de ti próprio agora:
- De quais almas te vejo companheiro?
- Não haja, rogo, em responder demora.” —
- — “Como outrora é meu dó tão verdadeiro,
- Vendo-te o vulto que chorei já morto,
- Tão dif’rente do que era de primeiro,
- “Dize, por Deus, por que és tão sem conforto:
- Tolhe-me a fala a vista, que me espanta;
- Responder-te não posso, em mágoa absorto.” —
- — “De tal poder” — tornou — “essa água e planta
- Sabedoria eterna tem dotado,
- Que consumação em mim produziu tanta.
- “Os que o rosto, cantando, têm banhado
- De pranto, havendo entregue à gula a vida,
- Sobem, na fome e sede, o santo estado.
- “A fome, a sede sente-se incendida
- Dos pomos pelo aroma e por frescura
- Das águas, sobre as ramas espargida.
- “Cada vez que giramos na fragura,
- Revive nossa pena e mais agrava;
- Erro chamando pena o que é doçura.
- “Esse desejo ardente de nós trava,
- Que fez Cristo dizer — Eli! contente,
- Quando o sangue em prol nosso na Cruz dava.” —
- — “Forese” — hei respondido incontinênti —
- “Dês que deixaste a terreal morada
- Passaram-se anos cinco escassamente;
- “Se a força de pecar stava esgotada
- Antes de vir da dor bendita a hora,
- Em que alma é com seu Deus conciliada,
- “Como te vejo nesta altura agora?
- Lá embaixo encontrar-te acreditara,
- Onde o tempo com tempo se melhora.” —
- — “Conduziu-me tão cedo Nela cara,
- Por pranto, que incessante há derramado,
- Do martírio a tragar doçura amara.
- “De orações e suspiros sufragado
- Assim, me alcei da encosta, onde se espera,
- E fui dos outros círc’los resgatado.
- “Tanto mais Deus com dileção esmera
- Aquela, que extremoso amei na terra,
- Quanto, só, em virtude ela é sincera.
- “Pois a Barbagia de Sardenha encerra
- Mulheres por pudor bem mais notadas,
- Que a Barbagia, onde o vício acende guerra.
- “Queres tu, doce irmão, manifestadas
- Idéias minhas? Pouco dista o dia
- Das vozes nesta prática empregadas,
- “Em que proíba o púlpito a ousadia
- Das impudentes damas florentinas,
- Que têm, mostrando os seios, ufania.
- “Morais ou quaisquer outras disciplinas
- Hão mister para andarem bem cobertas
- As mulheres pagãs ou marroquinas?
- “Mas, se tais despejadas foram certas
- Do castigo, que está-lhes iminente,
- Bocas teriam para urrar abertas.
- “E, se, antevendo, não me engana a mente,
- Grande angústia hão de ter antes que nasça
- Barba ao que em berço embala-se inocente.
- “Ah! de dizer quem sejas faz-me a graça!
- Não por mim; mas a turba atenta mira
- Teu corpo e a sombra, que com ele passa.” —
- — “Se agora à mente” — eu disse — “te surgira
- O que outrora um pra o outro havemos sido,
- Desprazer inda agudo te pungira.
- “Há pouco, me há do mundo conduzido
- Quem me precede; havia então rotunda
- A irmã do que vês aparecido.” —
- E o sol mostrei — “Por noite a mais profunda
- Dos verdadeiros mortos me há guiado,
- Quando a carne inda os ossos me circunda.
- “Tenho depois, por ele confortado,
- Desta montanha pelos círc’los vindo,
- Que em vós corrige o que trazeis errado.
- “Quanto disse, acompanha-me, cumprindo
- Té onde a Beatriz veja o semblante:
- Então sem ele avante irei seguindo.
- “Ei-lo! É Virgílio o guia meu constante!
- É aquele outro a sombra venturosa
- Por quem o vosso reino, vacilante,
- Tremeu, quando partiu-se jubilosa.” —