O PODER inefável e primeiro
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Depois de admirar a infinita sabedoria de Deus na criação do Universo, narra o Poeta como sem aperceber-se achou-se elevado ao Sol, em que estão as almas dos doutos na teologia. Doze espíritos mais reluzentes o circundam e um deles, S. Tomás de Aquino, revela o nome dos seus companheiros.
- O PODER inefável e primeiro,
- O Filho a contemplar co’ Amor sublime,
- De um e outro, eternal, vindo o terceiro,
- Quanto à vista e à razão nossa se exprime
- Com tal ordem criou, que, o efeito vendo,
- De adorar seu Autor ninguém se exime.
- As esferas, leitor, olhos erguendo
- Nota a parte, onde estão dois movimentos
- Um para o outro oposição fazendo.
- E começa a mirar de arte os portentos,
- Que tanto dentro em si o senhor ama,
- Que lhes tem sempre os olhos seus atentos.
- Vê como desse ponto se derrama
- Em linha oblíqua, o círc’lo, que transporta
- Os planetas que o mundo aguarda e chama.
- Se lhes assim, não fosse a estrada torta,
- Muita força no céu fora perdida
- E aqui potência quase toda morta.
- Se fora essa vereda preterida
- Mais ou menos, ficara transtornada
- A ordem no universo estatuída.
- Ora leitor, meditação pausada
- Faz de quanto comigo prelibaste:
- Leda a mente hás de ter, não saciada.
- Dou-te iguaria: come, pois, se praz-te.
- A matéria, em que escrevo, não consente,
- Nem por instantes, que a atenção se afaste.
- Da natura o ministro mais potente
- Que a influência do céu na terra imprime
- E o tempo mede com sua luz fulgente,
- À parte, que outro verso acima exprime,
- Se unindo, para o ponto se volvia,
- Onde mais cedo as trevas nos dirime.
- Já no seu seio estava e o não sabia,
- Como não pode alguém seu pensamento
- Saber, quando inda à mente não surgia.
- E Beatriz, em quem notava aumento
- De bem para melhor, tão de repente,
- Que o tempo fora ante o seu ato lento,
- De si mesma quanto era refulgente!
- O que era lá no sol onde eu me entrara,
- Não por cor, por seu brilho mais nitente,
- Posto que arte, uso, engenho me ajudara
- Descrever por imagens não pudera;
- Mas crer se pode e ver-se desejara.
- Não se estranhe, se baixa parecera,
- Querendo a tanto alar-se, a fantasia;
- Além do sol ninguém olhos erguera.
- Quarta família aqui resplandecia
- Do Sumo Pai, que sempre da Trindade
- No inefável spetáculo a sacia.
- E disse Beatriz: — “Tanta Bondade
- Humilde ao Sol dos anjos agradece,
- Que ao sol sensível te alça à claridade.” —
- Peito mortal jamais ardor aquece
- De sentir tão devoto e tão piedoso,
- Que a Deus a gratidão inteira expresse,
- Quanto é meu ao convite carinhoso.
- E em tanto enlevo o coração se acende,
- Que a Beatriz olvida, fervoroso.
- Não lhe despraz, e no seu riso esplende
- Tanto brilho dos olhos expressivos,
- Que do êxtase profundo me desprende.
- Fulgores então vi claros e vivos,
- De nós centro de si c’roa fazendo,
- Mais suaves em voz que em luz ativos.
- A filha de Latona se movendo
- Vemos assim de um cinto rodeada,
- No ar úmido as cores, se mantendo.
- Dos céus a corte, donde volto, ornada
- De jóias stá sublimes e formosas:
- Só nos céus pode a estima lhes ser dada.
- As vozes eram tais, que ouvi donosas.
- Quem não tem plumas para ir lá voando
- Pergunte a um mudo cousas portentosas.
- Aqueles sóis, em torno a nós cantando,
- Volveram-se três vezes: semelharam
- Astros em roda aos pólos circulando.
- Damas imitam, que no baile param,
- Em silêncio outras notas esperando
- Para seguir na dança que encetaram.
- E uma voz do seu seio disse: — “Quando
- Da Graça o raio em que o amor se acende
- Sublime, pelo amor se acrescentando,
- “Multiplicado em ti tanto resplende,
- Que te conduz pela celeste escada,
- Que a subir torna quem de lá descende,
- “O que à sede em que tens a alma abrasada
- Vinho negasse, irmão, livre não fora,
- Qual linfa de correr embaraçada.
- “Saber desejas como a c’roa enflora,
- Que cinge, contemplando-a a pulcra Dama,
- Que para o céu te guia protetora.
- “Um anho fui da santa grei que chama
- De Domingos a voz pelo caminho,
- Onde prospera só quem mal não trama.
- “Tomás de Aquino sou; me está vizinho,
- À destra de Colônia o grande Alberto
- A quem de aluno e irmão devo o carinho.
- “Se dos mais todos ser desejas certo,
- Na santa c’roa atenta cuidadoso,
- A tua vista a voz siga-me perto.
- “Nesse esplendor sorri-se jubiloso
- Graciano que num e noutro foro
- Di’no se fez de ser no céu ditoso.
- “Aquele outro ornamento deste coro
- Foi Pedro: como a pobre a of’renda escassa,
- À Santa Igreja deu rico tesouro.
- “A quinta luz, que as mais em lustro passa
- Se acende em tanta luz, que anela o mundo
- Saber se goza da celeste Graça.
- “O alto esp’rito encerra, tão profundo,
- Que se o Verbo de Deus é verdadeiro,
- De saber tanto não se alçou segundo.
- “Ao lado seu lampeja esse luzeiro,
- Que os anjos, seu mister, sua natura
- Em conhecer na terra foi primeiro.
- “Sorri na luz menor, serena e pura,
- Dos séculos cristãos esse advogado
- De Agostinho tão útil à escritura.
- “Se os olhos da tua mente acompanhado
- De luz em luz me tens nestes louvores
- Saber já tens da oitava desejado.
- “Do Sumo Bem se enleva nos fulgores
- Essa alma santa, havendo demonstrado
- As mentiras do mundo e os seus rigores;
- “Jaz daquela alma o corpo despojado
- Em Cieldauro; e ela veio à paz divina
- Após martírio e exílio amargurado.
- “Mais longe, em cada flama purpurina,
- Beda, Isidoro estão, Ricardo esplende,
- Que além do humano o pensamento afina.
- “Esse, de quem tua vista se desprende
- A mim tornando, achou, grave e prudente,
- Que morte pronta um grande bem compreende:
- “É Siger, que assim luz eternamente.
- Na rua de Fouare lera outrora
- Verdades, que ódio hão provocado ingente.” —
- E qual relógio, que nos chama em hora,
- Em que, desperta, do Senhor a Esposa
- Matinas canta e o seu amor implora;
- Que, no girar das rodas, tão donosa
- Nota faz retinir, de amor enchendo
- Devota alma, que o escuta fervorosa;
- O glorioso círc’lo, se movendo,
- Assim vi eu, com tal suavidade
- E doçura de vozes, que comprendo
- Só haja iguais do céu na eternidade.