DEPOIS que acerca do existir presente
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Dante volve os olhos para Beatriz, que estava atrás dele; depois mira para a frente e vê um ponto brilhantíssimo, em torno do qual se movem nove círculos de luz, que giram mais rapidamente e são mais brilhantes quanto mais próximos estão dele. Aquele ponto é Deus; os círculos são os coros angélicos.
- DEPOIS que acerca do existir presente
- Dos míseros mortais mostrou verdade
- Aquela a que emparaísa a mente,
- Como quem vê no espelho a claridade
- De tocha, que de trás esteja acesa,
- Suspeita inda não tenho da verdade;
- E, para olhar voltado, tem certeza
- De que o vidro é fiel ao que apresenta,
- Como o canto é do metro a natureza:
- Assim minha memória representa
- Que eu fiz, nos belos olhos me enlevando,
- Com que amor cativou minha alma isenta.
- De os contemplar, porém, os meus deixando
- E no que esse orbe faz onipotente,
- Quando em seu giro atenta-se os fitando,
- Um ponto vi, que lume tão fulgente
- Dardejava, que a vista deslumbrada,
- Fechava-se ante o lume translucente;
- Estrela, ao parecer, mais apoucada,
- Junto dela, de lua figurada,
- Como estrela ao pé de outra colocada.
- Como a c’roa talvez, que se depara
- Cingindo astro, que a torna luminosa,
- Quando o vapor que a tem mais condensara,
- Ígneo círc’lo, em carreira impetuosa.
- Distante, ao Ponto mais veloz cercava
- Do que a esfera que vai mais pressurosa.
- Este círc’lo primeiro outro abraçava;
- Ao terceiro o segundo, outro ao terceiro,
- Ao quarto o quinto e o sexto o circundava.
- Tão largo o sétimo era, que, inda inteiro,
- Abrangido, por certo, o não teria
- Aquele, que de Juno é mensageiro.
- Oitavo e nono assim: mas se movia
- Mais lento cada qual, segundo ele era
- Mais longe do primeiro, que corria.
- E a flama rutilava mais sincera
- No que da Excelsa luz mais perto estava
- Creio que em fluxo seu mais recebera.
- Mas Beatriz, que o enleio meu notava
- — “Daquele Ponto o céu e a natureza
- Estão na dependência” — me falava.
- “Olha o círc’lo mais próximo e a presteza,
- Que tanto lhe acelera o movimento:
- De ardentíssimo amor punge-o a viveza.” —
- — “Se do mundo.” — eu lhe disse — “o regimento
- Fosse qual nestes orbes aparece
- Do que ouço eu conseguira já contento;
- “Mas no mundo sensível me parece
- Ser cada esfera tanto mais divina,
- Quanto mais longe do seu centro desce,
- “Se instruir-me o querer teu determina
- Neste seráfico, estupendo templo,
- Que só com luz e com amor confina,
- “Explicar-me te digna, porque o exemplo
- Não se conforma em tudo ao seu modelo:
- Por saber a razão em vão contemplo” —
- — “De desatar o nó se ardente anelo
- Teus dedos não contentam, não te espante:
- Tal é, porque ninguém tentou solvê-lo.” —
- Tornou-me ela e seguiu: — “Terás bastante
- No que direi de luz ao entendimento:
- Aguça o engenho e escuta vigilante.
- “Nos círc’los corporais o crescimento
- Regula pelo influxo, que é spargido
- Nas partes que lhes formam complemento.
- “Mor bondade, mor bem tem produzido
- De mor bem foi mor corpo aquinhoado,
- Se igual primor nas partes é contido.
- “O círc’lo, pois, do qual arrebatado
- Gira o alto universo, é referente
- Ao de amor e ciência mais dotado.
- “Se à virtude a medida propriamente
- Adaptas, não regendo-te a aparência
- Das substâncias, que em círc’los tens em frente,
- “Mirífica hás de ver correspondência
- Entre maior e mais, menor e menos
- Em cada céu e a sua inteligência.” —
- Como os ares são fúlgidos, serenos,
- Se Bóreas sopra aquela face inchando,
- Que os hálitos difunde mais amenos.
- Resolvendo-se a névoa e se apagando
- A sombra que o hemisfério enegrecia,
- E o céu, a rir-se, as pompas ostentando:
- Assim eu, quando aquela que me guia
- Com sua explicação minha alma aclara,
- E a verdade, qual astro, me alumia.
- Depois que as vozes suas rematara,
- Bem como ferro a faiscar fervente,
- Dos círculos cad’un flamas dispara.
- Cada centelha incêndio faz ingente
- Em soma tal, que a do xadrez passava,
- Dobrando-se o algarismo infindamente.
- De coro em coro hosana ressoava
- Ao Ponto, que ao seu ubi, onde têm stado
- E onde sempre estarão pra sempre os trava.
- Ela, o espírito meu vendo atalhado,
- Disse-me: — “Aqueles círculos primeiros
- Te hão Serafins e Querubins mostrado.
- Assim nos orbes seus volvem ligeiros
- Por semelhar-se ao Ponto e o conseguindo,
- Segundo a vê-lo estão mais altaneiros.
- “Os Amores, que em torno estão, seguindo,
- Tronos se chamam do divino aspeto
- O primeiro ternário concluindo.
- “Prazer, bem sabes, todos têm seleto,
- Quanto mais sua vista se aprofunda
- Na verdade, alto fito do inteleto.
- “Desta arte se conhece que se funda
- Mais na visão celestial ventura
- Do que no amor, ação, que vem segunda.
- “Da visão é a medida a mercê pura,
- Por vontade e por graça produzida:
- De grau em grau se enalça a criatura.
- “Outro ternário, que do céu movida.
- Germina em primavera sempiterna,
- Pelo Áries noturno não despida,
- “Hosana entoa na harmonia eterna
- Com três coros; que soam de alegria
- Em ordens três, em cujo seio interna.
- “Ordens três compreende a jerarquia,
- Dominações, Virtudes, ocupando
- Potestades final categoria.
- “Nos penúltimos círculos girando,
- Principados e Arcanjos resplandecem;
- E dos Anjos, após festivo bando.
- “No Ponto as Ordens todas se embevecem,
- De baixo a Deus são todas atraídas,
- E uma das outras a atração padecem.
- “Contemplando-as, idéias tão subidas
- Dionísio formou com tanto zelo,
- Que as fez, como eu, por nomes conhecidas.
- “Não quis Gregório como norma tê-lo;
- Neste céu quando entrou, porém, se ria
- Do erro, em que estivera, ao percebê-lo.
- “Mortal, que o grã mistério compreendia
- E o disse à terra, não te mova espanto:
- Quem tinha-o visto aqui lhe descobria
- E mais verdade deste império santo.” —