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A Divina ComédiaInferno · Canto XXV
InfernoXXV

ASSIM dizia o roubador e, alçando

151 versos · 25 de 100


Vanni Fucci depois das negras predições desafia a Deus, pelo que o centauro Caco, todo coberto de serpentes, lhe corre atrás. Dante reconhece entre os danados alguns florentinos que, em Florença, desempenharam funções importantes, aproveitando-se dos dinheiros públicos e descreve suas transformações de homens em serpentes e vice-versa.

  1. ASSIM dizia o roubador e, alçando
  2. Ambas as mãos, que figuravam figas:
  3. “Toma, ó Deus” exclamou “o que eu te mando”.
  1. Serpes me foram desde então amigas:
  2. Porque logo uma ao colo se enroscava,
  3. Como a dizer: — “Não quero que prossigas!”
  1. Tolhendo-lhe outra os braços, se enlaçava
  2. Diante sobre o peito, e o movimento
  3. Com rebatido vínculo atalhava.
  1. Ah! Pistóia! ah! Pistóia! o incendimento
  2. Teu decreto, extinguido nome impuro,
  3. Pois dás da extirpe tua ao vício aumento!
  1. Tão soberbo não vi no abismo escuro,
  2. Contra Deus outro esp’rito; nem o ousado,
  3. Que de Tebas caiu morto do muro.
  1. Sem mais dizer fugira o condenado.
  2. Eis rábido centauro vi correndo
  3. A gritar: — “onde está o celerado?”
  1. Nem tem Marema de répteis horrendo
  2. Bando igual ao que o dorso carregava
  3. Té onde a humana forma está-se vendo.
  1. Na espádua, abaixo da cerviz pousava,
  2. As asas estendendo, atroce drago,
  3. Que fogo a quanto encontra arrevessava.
  1. “É Caco” — o Mestre diz — “que a imane estrago
  2. Afeito do Aventino se aprazia,
  3. Sob as penhas, de sangue em fazer lago.
  1. “Dos seus irmãos não segue a companhia,
  2. Por haver depredado, fraudulento,
  3. Armentio, que próximo pascia.
  1. “Tiveram fim seus crimes: golpes cento
  2. Sobre ele desfechou de Alcide a clava:
  3. Aos dez perdera já a vida o alento”. —
  1. Foi-se o centauro enquanto assim falava.
  2. Abaixo eis três espíritos chegando,
  3. Nos quais nenhum de nós inda atentava,
  1. “Quem sois?” — romperam súbito bradando.
  2. A Narração então suspende o Guia;
  3. E só deles curamos, escutando.
  1. Nenhum dessa companha eu conhecia;
  2. Mas então, como às vezes acontece,
  3. Um, chamando por outro, assim dizia:
  1. “Onde é Cianfa, que assim desaparece?”
  2. Dedo nos lábios fiz nesse momento
  3. A Virgílio sinal, por que atendesse.
  1. Em crer o que eu contar se fores lento,
  2. Não há de ser, leitor, para estranhado;
  3. Quase o que eu vi descrê meu pensamento.
  1. Quando eu dos três a vista era engolfado,
  2. Sobre seis pés se via uma serpente
  3. Contra um deles e o tem todo enlaçado.
  1. Abraçam-lhe os do meio rijamente
  2. O ventre; aos braços aos de cima rendem,
  3. Ambas as faces morde-lhe furente.
  1. Os de baixo nas coxas já se estendem,
  2. Interpondo-se a cauda, que, subindo
  3. Por detrás, voltas dá que os rins lhe prendem.
  1. Hera, de árvores os ramos recingindo.
  2. Não os enleia tanto, como a fera
  3. Alheios membros ao seu corpo unindo.
  1. Fundiram-se depois, de quente cera
  2. Com feitos; travando as suas cores,
  3. Um nem outro parece o que antes era:
  1. Como em papel, do fogo ante os ardores
  2. Procede escura cor; inda não sendo
  3. Negro, vão fenecendo os seus albores.
  1. Os dois, a maravilha percebendo,
  2. Gritavam-lhe: — “Ai! Agnel, quanto hás mudado!
  3. Um já não és mas dois ser não podendo!”
  1. Numa cabeça as duas se hão tornado;
  2. Confundidos estavam dois semblantes
  3. Num rosto, em que se haviam misturado.
  1. São dois os braços, que eram quatro de antes,
  2. Foram coxas e pernas, ventre e peito
  3. Membros, que nunca hão tido semelhantes.
  1. Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito;
  2. Seres dois e nenhum nessa figura
  3. Se via; e o montro foi-se a passo estreito.
  1. Quando o fervor canicular se apura,
  2. Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,
  3. E uma mouta deixando, outra procura.
  1. Tal menor serpe, lívida, inflamada.
  2. Negrejando, qual bago de pimenta,
  3. Aos outros dois se arroja acelerada.
  1. E na parte, por onde se alimenta
  2. Primeiro a vida nossa, um dos dois fere
  3. E ante ele tomba em queda violenta.
  1. Olha o ferido, mas nem voz profere;
  2. E sobre os pés imóvel bocejava,
  3. Como quem sono prenda ou febre onere.
  1. Fitava olhos na serpe, e esta o encarava;
  2. A chaga de um eu via, do outro a boca
  3. Fumegar; e o seu fumo se encontrava.
  1. Emudeça Lucano, quando toca
  2. Em Sabelo infeliz mais em Nascídio.
  3. Escute: mor portento ora se evoca.
  1. De Cadmo e Aretusa cale Ovídio:
  2. Se fonte a esta, àquela fez serpente,
  3. Não o invejo: aqui há pior excídio,
  1. Não converteu dois seres frente a frente,
  2. Tanto que permutasse formas duas
  3. Sua própria matéria de repente.
  1. Desta sorte compõem-se as partes suas:
  2. A cauda à serpe fende-se em forquilha,
  3. Cerra o ferido em uma as plantas nuas.
  1. Tal prisão coxas, pernas envencilha
  2. Que em breve nem vestígio há de juntura,
  3. Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.
  1. Fendida a cauda assume essa figura
  2. Que perde o homem; numa é tão macia
  3. A pele, quanto noutro fez-se dura.
  1. Entrar os braços nas axilas via;
  2. Tanto estendia os curtos pés a fera,
  3. Quanto o outro os seus braços encolhia.
  1. Os pés o drago extremos retorcera,
  2. Na parte, que se esconde, se mudando,
  3. Que em duas no mesquinho se fendera.
  1. Enquanto o fumo os dois ia velando
  2. De nova cor e a serpe o pêlo empresta,
  3. Que em todo perde o pecador nefando,
  1. Ergue-se um, cai o outro e no chão resta,
  2. Os ímpios olhos sem torcer, que viram
  3. Dos gestos seus a conversão funesta.
  1. Ao que era em pé às frontes lhe subiram
  2. Do rosto as sobras: cada face afeita
  3. Uma orelha, de duas, que saíram.
  1. Quanto de mais ficara então se ajeita,
  2. O nariz conformando-lhe na cara
  3. E de lábios lhe ornando a boca estreita,
  1. A beiça o que jazia dilatara;
  2. Qual caramujo, que as antenas cerra,
  3. À cabeça as orelhas retirara.
  1. A língua unida e no falar não perra
  2. Partiu-se, enquanto a do outro, forquilhada,
  3. Uniu-se; o fumo desde então se encerra.
  1. Essa alma, que em réptil era mudada,
  2. Pelo vale arremete sibilando,
  3. Falando, a outra escarra e a segue irada.
  1. Depois, seu novo dorso lhe voltando,
  2. Disse à terceira sombra: “Corra o Buoso,
  3. Como eu, por esta senda rastejando”.
  1. Assim vi no antro sétimo espantoso
  2. Mútuas transformações: tanta estranheza
  3. Desculpe o canto rude e descuidoso.
  1. Posto empanar dos olhos a clareza
  2. E entrar o assombro no ânimo eu sentisse,
  3. Não fugiram com tanta sutileza,
  1. Nem tão prestes que eu bem não discernisse
  2. Puccio Sciancato, que dos três somente
  3. Fora o que transmudado se não visse,
  1. Deu-te o outro, Gavili, dor pungente.
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