ASSIM dizia o roubador e, alçando
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Vanni Fucci depois das negras predições desafia a Deus, pelo que o centauro Caco, todo coberto de serpentes, lhe corre atrás. Dante reconhece entre os danados alguns florentinos que, em Florença, desempenharam funções importantes, aproveitando-se dos dinheiros públicos e descreve suas transformações de homens em serpentes e vice-versa.
- ASSIM dizia o roubador e, alçando
- Ambas as mãos, que figuravam figas:
- “Toma, ó Deus” exclamou “o que eu te mando”.
- Serpes me foram desde então amigas:
- Porque logo uma ao colo se enroscava,
- Como a dizer: — “Não quero que prossigas!”
- Tolhendo-lhe outra os braços, se enlaçava
- Diante sobre o peito, e o movimento
- Com rebatido vínculo atalhava.
- Ah! Pistóia! ah! Pistóia! o incendimento
- Teu decreto, extinguido nome impuro,
- Pois dás da extirpe tua ao vício aumento!
- Tão soberbo não vi no abismo escuro,
- Contra Deus outro esp’rito; nem o ousado,
- Que de Tebas caiu morto do muro.
- Sem mais dizer fugira o condenado.
- Eis rábido centauro vi correndo
- A gritar: — “onde está o celerado?”
- Nem tem Marema de répteis horrendo
- Bando igual ao que o dorso carregava
- Té onde a humana forma está-se vendo.
- Na espádua, abaixo da cerviz pousava,
- As asas estendendo, atroce drago,
- Que fogo a quanto encontra arrevessava.
- “É Caco” — o Mestre diz — “que a imane estrago
- Afeito do Aventino se aprazia,
- Sob as penhas, de sangue em fazer lago.
- “Dos seus irmãos não segue a companhia,
- Por haver depredado, fraudulento,
- Armentio, que próximo pascia.
- “Tiveram fim seus crimes: golpes cento
- Sobre ele desfechou de Alcide a clava:
- Aos dez perdera já a vida o alento”. —
- Foi-se o centauro enquanto assim falava.
- Abaixo eis três espíritos chegando,
- Nos quais nenhum de nós inda atentava,
- “Quem sois?” — romperam súbito bradando.
- A Narração então suspende o Guia;
- E só deles curamos, escutando.
- Nenhum dessa companha eu conhecia;
- Mas então, como às vezes acontece,
- Um, chamando por outro, assim dizia:
- “Onde é Cianfa, que assim desaparece?”
- Dedo nos lábios fiz nesse momento
- A Virgílio sinal, por que atendesse.
- Em crer o que eu contar se fores lento,
- Não há de ser, leitor, para estranhado;
- Quase o que eu vi descrê meu pensamento.
- Quando eu dos três a vista era engolfado,
- Sobre seis pés se via uma serpente
- Contra um deles e o tem todo enlaçado.
- Abraçam-lhe os do meio rijamente
- O ventre; aos braços aos de cima rendem,
- Ambas as faces morde-lhe furente.
- Os de baixo nas coxas já se estendem,
- Interpondo-se a cauda, que, subindo
- Por detrás, voltas dá que os rins lhe prendem.
- Hera, de árvores os ramos recingindo.
- Não os enleia tanto, como a fera
- Alheios membros ao seu corpo unindo.
- Fundiram-se depois, de quente cera
- Com feitos; travando as suas cores,
- Um nem outro parece o que antes era:
- Como em papel, do fogo ante os ardores
- Procede escura cor; inda não sendo
- Negro, vão fenecendo os seus albores.
- Os dois, a maravilha percebendo,
- Gritavam-lhe: — “Ai! Agnel, quanto hás mudado!
- Um já não és mas dois ser não podendo!”
- Numa cabeça as duas se hão tornado;
- Confundidos estavam dois semblantes
- Num rosto, em que se haviam misturado.
- São dois os braços, que eram quatro de antes,
- Foram coxas e pernas, ventre e peito
- Membros, que nunca hão tido semelhantes.
- Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito;
- Seres dois e nenhum nessa figura
- Se via; e o montro foi-se a passo estreito.
- Quando o fervor canicular se apura,
- Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,
- E uma mouta deixando, outra procura.
- Tal menor serpe, lívida, inflamada.
- Negrejando, qual bago de pimenta,
- Aos outros dois se arroja acelerada.
- E na parte, por onde se alimenta
- Primeiro a vida nossa, um dos dois fere
- E ante ele tomba em queda violenta.
- Olha o ferido, mas nem voz profere;
- E sobre os pés imóvel bocejava,
- Como quem sono prenda ou febre onere.
- Fitava olhos na serpe, e esta o encarava;
- A chaga de um eu via, do outro a boca
- Fumegar; e o seu fumo se encontrava.
- Emudeça Lucano, quando toca
- Em Sabelo infeliz mais em Nascídio.
- Escute: mor portento ora se evoca.
- De Cadmo e Aretusa cale Ovídio:
- Se fonte a esta, àquela fez serpente,
- Não o invejo: aqui há pior excídio,
- Não converteu dois seres frente a frente,
- Tanto que permutasse formas duas
- Sua própria matéria de repente.
- Desta sorte compõem-se as partes suas:
- A cauda à serpe fende-se em forquilha,
- Cerra o ferido em uma as plantas nuas.
- Tal prisão coxas, pernas envencilha
- Que em breve nem vestígio há de juntura,
- Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.
- Fendida a cauda assume essa figura
- Que perde o homem; numa é tão macia
- A pele, quanto noutro fez-se dura.
- Entrar os braços nas axilas via;
- Tanto estendia os curtos pés a fera,
- Quanto o outro os seus braços encolhia.
- Os pés o drago extremos retorcera,
- Na parte, que se esconde, se mudando,
- Que em duas no mesquinho se fendera.
- Enquanto o fumo os dois ia velando
- De nova cor e a serpe o pêlo empresta,
- Que em todo perde o pecador nefando,
- Ergue-se um, cai o outro e no chão resta,
- Os ímpios olhos sem torcer, que viram
- Dos gestos seus a conversão funesta.
- Ao que era em pé às frontes lhe subiram
- Do rosto as sobras: cada face afeita
- Uma orelha, de duas, que saíram.
- Quanto de mais ficara então se ajeita,
- O nariz conformando-lhe na cara
- E de lábios lhe ornando a boca estreita,
- A beiça o que jazia dilatara;
- Qual caramujo, que as antenas cerra,
- À cabeça as orelhas retirara.
- A língua unida e no falar não perra
- Partiu-se, enquanto a do outro, forquilhada,
- Uniu-se; o fumo desde então se encerra.
- Essa alma, que em réptil era mudada,
- Pelo vale arremete sibilando,
- Falando, a outra escarra e a segue irada.
- Depois, seu novo dorso lhe voltando,
- Disse à terceira sombra: “Corra o Buoso,
- Como eu, por esta senda rastejando”.
- Assim vi no antro sétimo espantoso
- Mútuas transformações: tanta estranheza
- Desculpe o canto rude e descuidoso.
- Posto empanar dos olhos a clareza
- E entrar o assombro no ânimo eu sentisse,
- Não fugiram com tanta sutileza,
- Nem tão prestes que eu bem não discernisse
- Puccio Sciancato, que dos três somente
- Fora o que transmudado se não visse,
- Deu-te o outro, Gavili, dor pungente.