“ESTE quem é ao nosso monte vindo
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Dante conversa com outras almas de invejosos. Respondendo o Poeta a uma pergunta de Rinieri de Calboli, intervém Guido del Duca, imprecando contra as cidades de Toscana e lamentando, depois, a degeneração das famílias nobres de Romanha. Os Poetas ouvem vozes que lembram episódios nos quais o pecado da inveja foi castigado.
- “ESTE quem é ao nosso monte vindo,
- Sem ter-lhe a morte as asas desatado,
- Os olhos, quando quer, fechando e abrindo?” —
- — “Ignoro; mas vem de outro acompanhado.
- Tu, que és mais perto, a perguntar começa,
- E, para nos falar, mostra-lhe agrado.” —
- De dois esp’ritos junto se endereça
- A mim desta arte a voz: stão-me a direita,
- Cada um para trás alça a cabeça.
- — “Ó alma” — disse-me uma — “que, na estreita
- Prisão corpórea ainda, aos céus ascende,
- Dá-nos consolo, à caridade afeita.
- “Quem és e donde vens? Porque nos prende
- Pasmo notando a Graça, que te ampara,
- Portento que ninguém viu, nem compreende.” —
- Tornei-lhe: — “Na Toscana se depara
- Rio, que brota em Falterona escasso
- E nunca, milhas cem correndo, pára:
- “Este corpo dali conduzo lasso.
- Dizer quem sou discurso vão seria:
- Meu nome inda não soa em largo espaço.” —
- — “Se bem te entendo” — assim me respondia
- A sombra, que antes de outra eu tinha ouvido —
- “Ao Arno o dizer teu se referia.” —
- — “Por que” — lhe atalha a outra — “ele escondido
- Nos tem do rio o nome verdadeiro?
- Cousa horrível se encerra em seu sentido?” —
- Disse-lhe a sombra, que falou primeiro:
- — “Não sei; mas fora bem feliz o instante,
- Em que o nome pereça ao vale inteiro:
- “Dês que nasce lá onde é redundante
- De águas a serra que o Peloro unira,
- Noutras partes, porém, pouco abundante,
- “Até que o mar do seu tributo aufira
- Reparo ao que no seio o céu lhe suga,
- E vida assim pra novos rios tira,
- “Todos ali virtude hão posto em fuga,
- Qual víbora inimiga, ou por efeito
- Do clima, ou por moral, que o bem refuga.
- “Natureza por vícios se há desfeito
- Na gente desse vale impuro,
- Como de Circe apascentada a jeito.
- “Cava o rio primeiro o leito escuro
- Entre porcos mais di’nos de bolota
- Do que de cibo, em que haja humano apuro.
- “Baixando, acha de gozos mó abjeta,
- Em que o furor à força não se iguala,
- E, como por desdém, busca outra meta.
- “Essa maldita e desgraçada vala
- Tantos mais cães em lobos vê tornados
- Quanto mais corre e mais caudal resvala.
- “Imerge em princípios mais rasgados,
- Onde encontra raposas tão manhosas,
- Que os laços mais sutis ficam frustrados.
- “Do porvir direi cousas espantosas,
- E quem me ouvir conserve na lembrança
- Verdades que há de ver bem dolorosas.
- “Teu neto os lobos a caçar se lança
- Desse rio maldito sobre a riva:
- Enquanto os não destroça não descansa.
- “A carne sua vende, estando viva,
- Como reses depois mata-os cruento;
- Muitos da vida e a si da glória priva.
- “Da triste selva sai sanguinolento
- E a deixa, tal que ainda após mil anos
- Tornar não há de ao primitivo assento.” —
- Como, ao presságio de futuros danos,
- Merencório se mostra o interessado,
- Onde quer que a fortuna urda os enganos;
- Assim o outro espírito: voltado
- Para escutar se havendo, se entristece,
- Depois que teve o sócio terminado.
- Como saber seus nomes eu quisesse,
- Ouvindo aquele, ao outro o gesto vendo,
- A pergunta entre rogos se oferece.
- O que falara respondeu dizendo:
- “Pedes que eu, pronto, quanto anelas faça,
- A instância minha em pouco apreço tendo.
- “Mas como em ti de Deus transluz a Graça,
- Não te há de ser Guido del Duca esquivo
- Tanto, que o teu querer não satisfaça.
- “Da inveja o fogo ardeu em mim tão vivo,
- Que ao ver sorriso de outrem no semblante,
- Em meu rosto o libor era expressivo.
- “Semeei: colho o fruto repugnante.
- Oh! por que, raça humana, o que repele
- Qualquer partilha almejas ofegante?
- “Este foi Rinieri: estava nele
- Dos Calboli o primor: ao nome honrado
- Herdeiro não deixou que a glória zele.
- “Não só à prole sua tem faltado,
- Entre o Pó e a montanha, o mar e o Reno
- O bem para a verdade e o prazer dado;
- “Pela extensa amplidão desse terreno
- Alastram tudo abrolhos perigosos:
- Quando extirpar se pode um tal veneno?
- “Onde Mainardi e Lizio estão famosos?
- Qual de Carpigna e Traversaro o fado?
- Ó Romanhóis bastardos desbriosos!
- “Quando um Fabro se tem nobilitado,
- Como em Faenza um Fosco Bernardino,
- Varas gentis de tronco definhado!
- “O pranto meu não julgues pouco di’no,
- Se com Guido de Prata rememoro
- O companheiro nosso, Azzo Ugolino;
- “Se Fred’rico Tignoso e a prole choro;
- Solares de Anastagi e Traversara,
- Sem herdeiros extintos, se eu deploro,
- “Cavaleiros e damas, glória rara,
- Que inspiravam amor e cortesia
- Na terra, que a virtude desampara!
- “Cai em ruínas, Brettinoro ímpia!
- Em ti viver tua gente não quisera;
- Com mais outras, temendo o mal, fugia.
- “Bem faz Bagnacaval: prole não gera,
- Castrocaro faz mal e pior Cônio
- Que a tais condes da vida o lume dera.
- “Os Pagani irão bem, quando o Demônio
- Deixá-los; mais não podem nome puro
- Já nunca possuir no solo ausônio.”
- Ugolin Fantolin, ficou seguro
- Da fama tua o lustre; pois já agora
- Não terás filhos pra torná-lo escuro.
- “Podes, Toscano, prosseguir embora:
- Pranto, mais que discursos, me deleita;
- Lembrando a pátria, o coração me chora.” —
- O passo as almas na vereda estreita
- Ouviam-nos, silêncio elas guardando.
- Era a jornada com certeza feita.
- Já ficaríamos sós, avante andando,
- Eis brada voz nos ares de repente;
- Veloz, qual raio, vinha a nós chamando:
- — “Quem me encontrar me mate incontinênti” —
- E fugiu qual trovão que distancia
- Se o vento a nuvem rasga de repente.
- O terrível clamor cessado havia,
- Com medonho fracasso eis outra brada,
- Como um trovão que a outro sucedia:
- — “Aglauro sou, em rocha transformada” —
- E a Virgílio acercar-me então querendo,
- Dei, não avante, um passo atrás na estrada.
- Tranqüilo o ar por toda parte vendo,
- — “Este é” — falou-me o Mestre — “o duro freio,
- Que os homens deve estar sempre contendo:
- “Mas vós mordeis a isca em triste enleio
- E o prístino inimigo do anzol tira:
- De conter ou pungir que vale o meio?
- “O céu vos chama, em torno de vós gira,
- Esplendores eternos vos mostrando;
- Mas a vista, enlevada, a terra mira,
- “E quem vê tudo então vai castigando.” —