DE asas pandas formosa se ostentava
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Dante fala à Águia externando uma sua antiga dúvida se alguém possa salvar-se não tendo conhecimento da lei de Cristo. Respondendo, a Águia aproveita a ocasião para repreender os malvados reis cristãos do seu tempo que nunca obterão a graça de Deus.
- DE asas pandas formosa se ostentava
- Essa imagem, que enlevos de alegria
- Nas almas enlaçadas excitava,
- E rubi cada qual me parecia,
- Em que raio de sol, fúlgido ardendo,
- Os lumes nos meus olhos refrangia.
- O que eu agora descrever pretendo
- Voz não contou, nem pena há referido,
- Nem criou fantasia encarecendo.
- O bico da Águia vi falar, e o ouvido
- Eu e meu nas palavras distinguia,
- Mas nós e nosso estava no sentido.
- — “Porque fui justo e pio” — assim dizia —
- “Exaltado me vejo a tanta glória,
- Que excede a quanto o anelo aspiraria.
- “De mim deixei na terra tal memória,
- Que apregoam-na os homens pervertidos,
- Sem exemplos seguir, que narra a história.” —
- Como em pira dão lenhos incendidos
- Um só calor, aqueles mil amores
- Da imagem stavam num falar contidos.
- Então lhes disse: “Ó vós, perpétuas flores
- Do júbilo eternal, que num perfume
- Sentir fazeis multíplices olores,
- “Esta fome fartai, que me consome,
- Há largo tempo, na terrestre vida,
- Onde alimento nunca achar presume.
- “Se do céu noutro reino é refletida
- A divina Justiça em claro espelho,
- Sei que sem véus no vosso é percebida.
- “Sabeis que, atento, a ouvir-vos me aparelho;
- Sabeis também que, nunca saciado,
- Ardo em desejo que se fez já velho.” —
- Qual falcão, do capelo desvendado,
- Que a fronte move, as asas exercita
- E se apavona ledo e alvoroçado,
- Tal vi a insígnia, que essa grei bendita,
- Louvor da graça divinal, formara,
- Com hinos próprios da mansão que habita.
- Depois dizia: — “Aquele, que traçara
- Com seu compasso o mundo e no começo
- De ocultas, claras cousas o dotara,
- “Não pôde tanto seu poder impresso
- No universo deixar, que o Eterno Verbo
- A criação não teve infindo excesso.
- “Prova-o bem quem primeiro foi soberbo;
- Pois, sendo ele perfeita criatura,
- Não esperando a luz, caiu acerbo.
- “Todo ente, pois, somenos em natura
- Conter o Bem sem fim não circunscrito
- Não pode e em si guarda a mensura.
- “Nossa vista, de alcance tão finito,
- Posto seja um dos raios dessa Mente,
- Que as cousas todas enche no infinito,
- “Não é, por natureza, tão potente,
- Que não discirna a sua Causa Eterna,
- Do que ela é na verdade diferente.
- “Penetra na justiça sempiterna
- A vista concedida ao vosso mundo,
- Bem como o olhar, que pelo mar se interna:
- “Se junto ao litoral lhe enxerga o fundo,
- No pélago o não vê: certo é que existe,
- Mas encoberto está por ser profundo.
- “Se do Lume não vem, que só persiste
- Sempre sereno, a luz torna-se em treva,
- Ou da carne é veneno, ou sombra triste.
- “Já compreendes que o véu romper se deva,
- Que a Divina Justiça te escondia,
- E a tão freqüentes dúvidas te leva.
- “Junto ao Indo — tua mente assim dizia —
- Um varão vem á luz: de Cristo o nome
- Nem por voz, nem por letras conhecia.
- “Os feitos e desejos são desse home’
- Bons no quanto julgar à razão cabe;
- Em pecar ditos e atos não consome.
- “Quando sem fé e sem batismo acabe,
- Há justiça em ser ele condenado?
- Pode ter culpa quem não crê, não sabe?
- “Mas tu quem és, que, em tribunal sentado,
- Julgas, de léguas em milhões distante,
- Se mal vês o que a um palmo é colocado?
- “Em duvidar, por certo, iria avante
- Quem assim sutilezas apurara,
- Sem a luz da Escritura triunfante.
- “Terrenos vermes! raça estulta, ignara!
- A primeira Vontade, por si boa,
- De si, Supremo Bem, se não separa.
- “Justo é somente o que com ela soa,
- A si nenhum criado bem a tira,
- Todo o bem, radiando, ela afeiçoa.” —
- Como a cegonha, que o seu ninho gira,
- Os filhotes já tendo apascentado,
- Enquanto cada qual, farto, a remira,
- Assim, os olhos quando eu tinha alçado
- Fez o pássaro santo; e asas movia,
- Por múltiplas vontades sustentado.
- Volteando cantou; depois dizia:
- “As notas não comprendes do meu canto,
- Como os mortais de Deus sabedoria.” —
- As flamas quando já do Esp’rito Santo
- Quedaram nessa imagem, que alcançara
- Aos Romanos do mundo temor tanto,
- Prosseguiu: — “Este reino não depara
- Jamais quem não acompanhou a Cristo
- Nem antes, nem depois que à Cruz se alçara.
- “Dizem muitos em grita — Cristo! Cristo!
- Menos perto, em juízo, do que o infido
- Lhe hão de ser que jamais conheceu Cristo.
- “Há de os danar o Etíope descrido,
- Quando em grei rica e pobre eternamente
- For o gênero humano repartido.
- “Dos reis cristãos o que dirão em frente
- Os Persas, lendo no volume aberto,
- Onde tanto flagício está patente?
- “Ali hão de se ver entre os de Alberto
- Os que serão em breve registados:
- De Praga o reino tornarão deserto.
- Se hão de ver sobre o Sena acumulados
- Os do Rei, que a moeda falsifica,
- Da fera morto aos dentes afiados.
- Se há de ver a soberba, atroce, inica
- Quem me demência o Escocês e o Bretão lança:
- Nenhum nos seus confins contente fica.
- “E se há de ver quanto em luxúria avança
- O Rei de Espanha e o que a Boêmia rege,
- Que mostra ao seu dever tanta esquivança.
- “Ninguém ao Coxo de Sião inveje:
- Com I sua bondade se assinala,
- Com M o que em contrário ama e protege
- “Se há de ver que a avareza à ignávia iguala
- No Rei da ilha, em que morreu Anquise,
- E donde o fogo, a trovejar, se exala.
- “Porque do seu valor mal se ajuíze,
- Em cifra a história sua é resumida,
- Que muito em pouco espaço localize,
- “Será patente a vergonhosa vida
- Do tio e desse irmão, que hão desonrado
- Dois cetros e a ascendência enobrecida.
- “O Rei de Portugal será notado
- E o Rei de Noruega e mais aquele,
- Que de Veneza os cunhos tem falsado.
- “Ditosa Hungria! que de si repele
- O jugo da opressão! Feliz Navarra,
- Quando em seus montes que defensa vele!
- “E creiam todos que já d’isto em arra
- Nicósia e Famagusta se lamentam,
- Bramindo de uma fera sob a garra:
- Os exemplos dos mais não o escarmentam.” —