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A Divina ComédiaInferno · Canto XIII
InfernoXIII

NÃO stava ainda Nesso do outro lado

151 versos · 13 de 100


Os dois Poetas entram no segundo compartimento, onde são punidos os violentos contra si mesmos e os dilapidadores dos próprios bens. Os primeiros são transformados em árvores, cujas negras folhas as Hárpias dilaceram; os outros são perseguidos por cães famintos que os despedaçam. Dante encontra Pedro des Vignes, de quem ouve os motivos pelos quais se suicidou e as leis divinas em relação aos suicidas. Vê depois o senense Lano e o paduano Jacob de Sant’Andréa. Ouve, enfim, de um suicida florentino, qual é a causa dos males da sua pátria.

  1. NÃO stava ainda Nesso do outro lado,
  2. Quando nós por um bosque penetramos,
  3. Dos vestígios de passos não marcado.
  1. Não fronde verde, mas escura, ramos
  2. Não lisos, mas travados e nodosos,
  3. Não pomos, puas com veneno achamos.
  1. Por silvados mais densos, mais umbrosos,
  2. Do Cecina a Corneto, a besta brava,
  3. Não foge, agros deixando deleitosos.
  1. Das Hárpias o bando aqui pousava.
  2. Que expeliram de Strófade os Troianos,
  3. Vaticinando o mal, que os aguardava.
  1. Asas têm largas, colo e rosto humanos,
  2. Garras nos pés, plumoso e ventre enorme,
  3. Soam na selva os uivos seus insanos.
  1. E disse o Mestre: “Convém já te informe
  2. Que o recinto segundo vais entrando,
  3. Onde verás spetáculo disforme,
  1. “Até que ao areal chegues infando.
  2. Atenta! E darás fé à narrativa,
  3. Que fiz, ainda lá no mundo estando”.
  1. Em toda parte ouvi grita aflitiva:
  2. Como não via quem assim gemesse,
  3. Parei e a torvação se fez mais viva.
  1. Creio que o Mestre cria então que eu cresse
  2. Que esses lamentos enviava aos ares
  3. Uma turba, que aos olhos se escondesse;
  1. Pois disse-me: “De um tronco se quebrares
  2. Um só raminho, ficarás ciente
  3. Desse erro em que se enleiam teus pensares”. —
  1. O braço estendo então e prontamente
  2. Vergôntea quebro. O tronco, assim ferido
  3. “Por que razão me arrancas?” diz fremente.
  1. De sangue negro o ramo já tingido,
  2. “Por que me rompes?” — prosseguiu gemendo —
  3. Assomos de piedade nunca hás tido?” —
  1. “Fui homem, hoje o lenho, que estás vendo!
  2. Mais compassiva a tua mão seria
  3. Se alma aqui fosse de um dragão tremendo”.
  1. Como acha verde, quando se incendia
  2. Num extremo s’estorce, no outro estala,
  3. Chiando e a umidade fora envia:
  1. Daquela arvora assim brotava a fala,
  2. E o sangue; a minha mão já desprendera
  3. O ramo, e, entanto, o horror no peito cala.
  1. “Se de antes ele acreditar pudera”
  2. Lhe torna o sábio Mestre “alma agravada,
  3. O que eu nos versos meus lhe descrevera,
  1. “Por te ferir sua mão não fora alçada.
  2. Não crera eu mesmo, e tanto que o induzira
  3. Ao feito, que me pesa e desagrada.
  1. “Diz-lhe quem foste e as dúvidas lhe tira.
  2. O mal te compensando, a fama tua
  3. Há de avivar no mundo, a que retira”. —
  1. E o tronco: “Alívio tanto à dor, que atua,
  2. Causais, que de bom grado eu já explico:
  3. Ao triste dai que a mágoa exprima sua.
  1. Fui quem do coração de Frederico
  2. As chaves tive e usei com tanto jeito,
  3. Fechando e desfechando que era rico
  1. “Da fé com que a mim só rendeu seu peito
  2. No glorioso cargo fui constante,
  3. Força, alento exauri por seu proveito.
  1. “A torpe meretriz, que, a todo instante
  2. Ao régio paço olhos venais volvendo,
  3. Morte comum, das cortes mal flagrante,
  1. “Contra mim ódio em todos acendendo,
  2. Por eles acendeu iras de Augusto,
  3. Que honras ledas tornou-me em luto horrendo.
  1. “Ressentindo-me então do mundo injusto,
  2. Por fugir seus desdéns, buscando a morte,
  3. Comigo iníquo fui eu, que era justo.
  1. “Pelo tronco em que peno desta sorte,
  2. Que jamais infiel hei sido, juro,
  3. Ao Rei meu, que houve a glória por seu norte,
  1. “De vós o que voltar à luz adjuro
  2. Que a memória me salve ao nome honrado,
  3. Que vulnerou da inveja o golpe duro”. —
  1. O vate inda esperou. — “Pois se há calado”. —
  2. Disse-me “fala, se tu mais desejas
  3. E pede-lhe: do tempo és apressado”. —
  1. Tornei: “Tu mesmo inquires quanto vejas
  2. Mais convir-me; que eu sinto-me inibido
  3. Por mágoas, que em minha alma são sobejas”.
  1. Ele então: “— Se o desejo teu cumprido
  2. For por este homem, nobremente usando,
  3. Te apraza, encarcerada alma, ao pedido
  1. “Nosso atender, e como nos mostrando
  2. Se liga ao tronco o esp’rito e se é factível
  3. Soltar-se um dia, o vínculo quebrando”. —
  1. Soprou de rijo o lenho; e perceptível
  2. Aquele som desta arte nos dizia:
  3. — “Resposta breve dou quanto é possível.
  1. “Quando os laços do corpo uma alma ímpia
  2. Destrói por si, do seu furor no enleio
  3. Ao círc’lo sete Minos logo a envia.
  1. “Na selva tomba e aonde acaso veio,
  2. E como o seu destino lhe consente,
  3. Aí, qual grão germina de centeio,
  1. “Vai crescendo até ser árvore ingente:
  2. As Hárpias, que a fronde lhe devoram,
  3. Causam-lhe dor, que rompe em voz plangente.
  1. “Hemos de ir onde os corpos nossos moram,
  2. Como as outras, mas sem que os revistamos,
  3. Mor pena aos que em perdê-los prestes foram.
  1. “Arrastados serão por nós: aos ramos
  2. Pendentes ficarão nesta floresta
  3. Nos troncos, em que, assim, vedes, penamos”. —
  1. Ouvíamos ainda a sombra mesta,
  2. De mais dizer cuidando houvesse o intento.
  3. Eis sentimos rumor, que nos molesta.
  1. Assim monteiro, à caça pouco atento,
  2. Do javardo e dos cães ouve o estrupido
  3. E das ramadas o estalar violento.
  1. Súbito vejo à esquerda, espavorido,
  2. Fugindo esp’ritos dois nus, lacerados,
  3. Ramos rompendo ao bosque denegrido.
  1. “Ó morte!” um clama — “acode aos desgraçados!”
  2. O segundo, que tardo se julgava:
  3. “Ninguém, ó Lano, os pés tanto apressados
  1. “De Toppo nas refregas te observava!”
  2. Porém, de todo já perdido o alento,
  3. Numa sarça acolheu-se que ali stava.
  1. Corria, enchendo a selva, em seguimento
  2. De famintas cadelas negro bando,
  3. Quais alões da cadeia ao todo isento
  1. A sombra homiziada se enviando,
  2. A fez pedaços a matilha brava,
  3. E logo após levou-os ululando.
  1. Então meu Guia pela mão me trava,
  2. Conduz-me à sarça, que se em vão carpia
  3. Pelas roturas, que o seu sangue lava.
  1. “Ó Jacó Santo André!” triste dizia —
  2. “Podia eu ser-te acaso amparo certo?
  3. Em mim por crimes teus que culpa havia?” —
  1. Disse-lhe o Mestre, quando foi mais perto:
  2. “Quem és tu, que o teu sangue e mágoas exalas
  3. Por golpes tantos, de que estás coberto?” —
  1. Tornou-lhe: “Ó alma que dessa arte falas
  2. E tu que o dano vês, que me separa,
  3. Da fronde minha, agora amontoá-las
  1. “Dignai-vos junto à rama, que as brotara.
  2. Na cidade nasci que por Batista
  3. Deixou prisco patrão, que da arte amara
  1. “Sempre pelos efeitos a contrista.
  2. E se do Arno na ponte não restasse
  3. Um vestígio, que traz seu culto à vista
  1. “Talvez ela à existência não tornasse,
  2. E quem das cinzas, que Átila há deixado,
  3. Levantou-a os esforços malograsse.
  1. “Na minha própria casa hei-me enforcado”. —
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