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A Divina ComédiaInferno · Canto XXII
InfernoXXII

MARCHAR vi cavaleiros à peleja

151 versos · 22 de 100


Andando os dois Poetas pelo aterro à esquerda, vêem muitos trapaceiros, que, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo. Sobrevêem os diabos e um deles é lacerado. É este Ciampolo, de Navarra, que consegue, depois, livrar-se das garras dos diabos, o que dá motivo a uma briga entre os demônios.

  1. MARCHAR vi cavaleiros à peleja,
  2. Travar luta, enlear-se no combate
  3. E até pedir à fuga que os proteja;
  1. Em vossa terra esquadras dar rebate
  2. Vi, Aretinos; vi as cavalgadas,
  3. Torneios, justas no mavórtico embate,
  1. De tubas ao clangor, às badaladas,
  2. Com sinais de castelos, de tambores,
  3. Com artes novas ou entre nós usadas:
  1. Não vi mover peões, nem corredores,
  2. Nem baixéis, que regula a terra ou estrela,
  3. De igual clarim aos sons atroadores.
  1. Com dez demônios (que companha bela!)
  2. Partimo-nos, porém rezar com santo,
  3. Urrar com lobos discrição revela.
  1. Minha atenção no pez se engolfa, entanto,
  2. Por saber quanto encerra a negra cava,
  3. Ali quem pena, quem derrama pranto.
  1. Como o delfim, que da tormenta brava
  2. O nauta avisa, o dorso recurvando,
  3. Presságio do mau tempo, que se agrava.
  1. Um lenitivo à pena, assim, buscando,
  2. Mostrava o tergo algum dos condenados,
  3. Qual relâmpago, logo se esquivando.
  1. Como à borda de charcos enlodados
  2. A fronte deixa à rã ver da água fora,
  3. Pernas e corpo tendo resguardados:
  1. Assim no pez a gente pecadora.
  2. Mas, Barbariccia próximo já sendo,
  3. Na resina se esconde abrasadora.
  1. Eu vi (e ainda agora estou tremendo!)
  2. Em cima retardar-se um desditoso
  3. Qual rã, que fica, as mais desparecendo.
  1. Perto ali stava Grafiacane iroso:
  2. Fisgou-o na enviscada cabeleira,
  3. E alçou, qual lontra, ao ar o criminoso.
  1. Sabia os nomes da caterva inteira;
  2. Ouvindo-os, atentei nos escolhidos:
  3. Distingui-los podia de carreira.
  1. “Eia! depressa os teus ferrões compridos
  2. No costado lhe crava, ó Rubicante!”
  3. Os demônios gritaram-lhe incendidos.
  1. “Ó Mestre” — disse — “inquire insinuante
  2. Quem seja aquele mísero e mesquinho
  3. Que em mãos caiu da turba petulante”.
  1. Moveu-se o Mestre e, à cava já vizinho,
  2. Perguntou-lhe em que terra ele nascera.
  3. — “Em Navarra” — tornou-lhe — eu tive o ninho.
  1. “De um fidalgo ao serviço me pusera
  2. Minha mãe, quando o pai meu devastara
  3. Fazenda e a própria vida com mão fera.
  1. “D’El-rei Tebaldo eu na privança entrara:
  2. Vendia os seus favores fraudulento;
  3. Sofro a pena do mal, que praticara”.
  1. Então os dentes lhe cravou cruento,
  2. De javardo quais presas, Ciriatto:
  3. Armam-lhe a boca, servem de instrumento:
  1. Nas mãos de imigo seu caíra o rato:
  2. Barbariccia, entre os braços o estreitando,
  3. — “Alto!” — lhe diz — “A mim cabe seu trato”.
  1. E o rosto para o Mestre meu voltando,
  2. Falou: — “Pergunta, se ainda mais desejas
  3. Antes que o tenha lacerado o bando”.
  1. “Algum dos pecadores, com quem stejas”
  2. Virgílo interrogou — “Latino há sido?”
  3. Tornou: — “Vou contentar-te no que almejas.
  1. “No pez deixei alguém por tal havido...
  2. Ah! não temera, estando lá coberto,
  3. Ser de unhas e farpões ora ferido”.
  1. — “É demais!” — Libicocco diz, que perto
  2. Estava; e um braço ao triste dilacera,
  3. Do croque ao golpe, aquele algoz esperto.
  1. Às pernas Draghignaz também quisera
  2. Do mísero investir; o cabo iroso
  3. Acesos olhos volve e os dois modera.
  1. Cessa um pouco o rumor e pessuroso
  2. Pergunta o Mestre àquela sombra aflita,
  3. Que do golpe olha o efeito doloroso:
  1. “Quem foi essa alma, como tu prescita,
  2. Que, por vires à tona, hás lá deixado?”
  3. Responde o pecador: — “Foi Frei Gomita
  1. De galura, nas fraudes consumado
  2. Que do seu amo a imigos poupou dano,
  3. E, traidor, foi por eles premiado.
  1. “Por ouro os deixou ir, como de plano
  2. Confessa; e em tudo o mais provou ter foro
  3. Nas tretas, ser nos dolos soberano.
  1. “Miguel Zanche, o Juiz de Logodoro,
  2. Com ele ostenta, em práticas freqüentes
  3. De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.
  1. “Ai! vede como esse outro range os dentes!
  2. Iria por diante; mas receio
  3. Na pele a fúria dos ferrões pungentes”.
  1. Atenta o cabo de olhos no meneio
  2. Com que a ferir se apresta Farfarello.
  3. “Vai daí!” — lhe gritou — “pássaro feio!”
  1. — “Se Toscanos, Lombardos tens anelo
  2. De ver e ouvir” — o triste prosseguia —
  3. “Traça darei, com que satisfazê-lo.
  1. Suspendam Malebranche essa porfia;
  2. Não temam sócios meus dura vingança,
  3. Que eu, sentado, um só não, muitos faria
  1. “De lá surdir, segundo a nossa usança,
  2. Ao sinal de assovio, que de ausente
  3. Perigo ao vir à tona dá fiança”.
  1. Cagnazzo alça o focinho, de repente,
  2. E, abanando a cabeça, diz — “Cuidado!
  3. Astúcia é por lançar-se ao pez fervente”.
  1. Ele, que em cópia ardis tinha guardado,
  2. Tornou: — “Sutil astúcia, na verdade,
  3. Causar aos meus tormento redobrado!”
  1. Dos outros contra o aviso, por vaidade,
  2. Alichino lhe disse: — “Se abalares,
  3. Não provarei de pés agilidade,
  1. “Hei de, voando, te agarrar nos ares.
  2. Vamos do cimo e à riba retiremos:
  3. Maravilha, se a tantos enganares!“
  1. Leitor, logração nova contemplemos.
  2. Já todos volvem de outro lado a vista:
  3. Quem mais avesso assim primeiro vemos.
  1. O Navarro estudara-o como invista;
  2. E arrancando, de súbito, ao betume
  3. Se arroja e a liberdade então conquista.
  1. Da afronta sentem todos o azedume,
  2. Inda mais quem motivo dera ao feito,
  3. Gritando: — “Preso estás!” — salta do cume,
  1. Porém do medo se avantaja o efeito
  2. Ao das asas: um baixa ao fundo presto,
  3. No ar sustém-se o outro, alçando o peito.
  1. Assim mergulha o pato na água lesto,
  2. Quando avista o falcão: perdida a presa,
  3. Se torna o caçador cansado e mesto.
  1. Calcabrina, da raiva na braveza,
  2. Após o sócio voa, por ter briga,
  3. Se a alma como deseja, vence empresa.
  1. Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga,
  2. As garras volta contra o companheiro:
  3. Furor à luta sobre o lago o instiga.
  1. As unhas o outro, gavião ligeiro,
  2. Lhe crava e, entrelaçando-se espantosos,
  3. Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.
  1. Separa o grão fervor os dois raivosos;
  2. Em vão, porém, subir-se pretenderam,
  3. Que as asas prendem borbulhões viçosos.
  1. Os outros vendo o caso, se doeram:
  2. Envia quatro o cabo diligente;
  3. E de croques armados acorreram.
  1. De um lado e de outro chegam velozmente.
  2. Tendem farpões aos sócios enviscados,
  3. Cozidos já naquela crusta ardente,
  1. E desta arte os deixamos atalhados.
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