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A Divina ComédiaPurgatório · Canto XXVI
PurgatórioXXVI

ENQUANTO imos a borda costeando.

148 versos · 60 de 100


Entre os luxuriosos e os que pecaram contra a natureza Dante encontra o poeta Guido Guinicelli, ao qual exprime a sua profunda admiração. Guido lhe aponta o poeta provençal Arnaud Daniel, que o saúda em versos provençais.

  1. ENQUANTO imos a borda costeando.
  2. Um após outro, o Mestre repetia:
  3. “Eu te previno, vai com tento andando!’
  1. O sol pela direita me feria;
  2. Purpureava a luz todo o poente:
  3. Do céu o azul de branco se tingia.
  1. Co’a sombra minha ainda mais rubente
  2. Parece a flama; e as almas, que passavam,
  3. Notando-a davam-me atenção ingente.
  1. Nessa estianheza ensejo deparavam
  2. Para, entre si, conversação travarem.
  3. “Não é fictício o corpo seu” — falavam.
  1. Quando podiam, mas tendo cuidado
  2. Avançavam por mais certificarem,
  3. O fogo expiatório em não deixarem.
  1. — “Tu, que vais após outros colocado,
  2. Mostrando ser, não tardo, respeitoso,
  3. Responde: em fogo e sede ardo, abrasado.
  1. “Não sou eu só de ouvir-te desejoso:
  2. Quantos vês da resposta sentem sede
  3. Mais que Etíope da água cobiçoso.
  1. “Diz-nos como o corpo teu parede
  2. Oponha desta sorte à luz do dia:
  3. Não te colheu da morte acaso a rede?” —
  1. Uma sombra falou-me. Eu pretendia
  2. Logo explicar; porém fui distraído
  3. Pelo que então de novo aparecia.
  1. Pelo caminho andando escandecido,
  2. Outra grei ao encontro veio desta:
  3. Atalhei-me, em mirar pondo o sentido.
  1. De parte a parte se dirige presta
  2. Uma alma a outra; osculam-se e em seguida
  3. Vão-se, contentes dessa breve festa.
  1. Assim da negra legião saída,
  2. Em marcha, toca em uma outra formiga,
  3. Por saber do caminho ou sorte havida.
  1. Separando-se após a mostra amiga,
  2. Antes que o giro sólito transcorra
  3. Cada uma grei em brados se afadiga.
  1. — “Sodoma!” — clama a última — “Gomorra!”
  2. E a outra: — “Entrou Pasifae na vaca,
  3. Por que à luxúria sua touro acorra.” —
  1. Como grous, de que um bando se destaca
  2. Para os Rifeus e o outro pra o deserto,
  3. Pois calma ali e frio aqui se aplaca,
  1. Uns se vão, outros vêm; voltando, ao perto
  2. O hino se renova, e o pranto e o brado,
  3. Que tem, qual mais convém, efeito certo.
  1. Os mesmos, que me haviam perguntado,
  2. De mim como inda há pouco, se acercaram:
  3. Stá desejo nos gestos desenhado.
  1. Vendo ainda o que já manifestaram,
  2. — “Sabeis vós, que tereis de glória em dia,
  3. Paz que os vossos martírios vos preparam,
  1. “Que inda não jaz meu corpo em terra fria;
  2. Comigo vem na própria compostura,
  3. Com seu sangue e seus membros” — lhe dizia.
  1. “Minha cegueira aqui a luz procura:
  2. Lá no céu santa Dama há conseguido
  3. Que eu, vivo, por aqui me eleve à altura.
  1. “Dizei-me (e seja em breve concedido)
  2. Quanto anelais, no céu, que é de amor cheio
  3. E em que espaço mais amplo está contido!
  1. “Para que eu tenha de narrá-lo o meio,
  2. Quem fostes e também que turba é aquela,
  3. Que como hei visto ao vosso encontro veio.” —
  1. Se o pasmo seu o montanhês revela,
  2. Quando rude e boçal vê de repente
  3. Quanto pode encerrar cidade bela,
  1. Na grei não foi o efeito diferente.
  2. Tornando sobre si, porém, do espanto,
  3. Que se esvai logo em peito preminente,
  1. — “Ditoso tu, que vendo o nosso pranto” —
  2. Respondeu quem primeiro há perguntado —
  3. “Alcanças ao viver ensino santo!
  1. “Inquinaram-se aqueles no pecado,
  2. Porque César outrora, triunfando,
  3. Rainha, em vitupério, foi chamado.
  1. “Eis por que se acusavam se apartando,
  2. Contra si de — Sodoma! alçando o brado,
  3. Do fogo à pena o opróbrio acrescentando.
  1. “Hermafrodito foi nosso pecado;
  2. Mas tendo as leis humanas transgredido
  3. De brutos no apetite desregrado,
  1. “Por nossa injúria o nome é repetido,
  2. Quando partimos, da mulher impura,
  3. Que em bestial figura besta há sido.
  1. “Se queres, vendo a nossa nódoa escura,
  2. Do nome de cada um ser instruído,
  3. Não sei, nem tempo para tal nos dura.
  1. “Mas o meu te farei bem conhecido;
  2. Vês Guido Guinicelli: o crime expia
  3. Por se haver inda a tempo arrependido.” —
  1. Quais, ante a fúria em que Licurgo ardia,
  2. Os filhos dois achando a mãe, ficaram,
  3. Tal senti, sem correr viva alegria,
  1. Quando o nome essas vozes declararam
  2. Do pai meu e do pai de outros melhores,
  3. Que em doce metro amores decantaram.
  1. Sem falar, sem ouvir perscrutadores
  2. Longamente olhos meus o contemplaram:
  3. Vedavam-me acercar do fogo ardores.
  1. Depois que em remirá-lo se enlevaram,
  2. Ao seu serviço declarei-me presto,
  3. E solenes promessas o afirmaram.
  1. — “Imprimiu tal vestígio o teu protesto” —
  2. Tornou — “no peito meu agradecido,
  3. Que fora além do Letes manifesto.
  1. “Se hei de ti a verdade agora ouvido,
  2. O que di’no me fez do sentimento,
  3. Que tens na voz, nos olhos insculpidos?” —
  1. E eu: — “Das rimas vossas o concento,
  2. Que, enquanto usar-se do falar moderno,
  3. Salvas hão de viver do esquecimento.” —
  1. — “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
  2. (E seu dedo outra sombra me apontava)
  3. Mais primor teve no falar materno.
  1. “Nos versos, nos romances superava
  2. A todos: stultos só dizer ousaram
  3. Que o Limosim aquele avantajava.
  1. “Pelo rumor verdade desprezaram,
  2. E, como arte e razão desconheceram,
  3. Sem fundamento opinião formaram.
  1. “Assim muitos outrora procederam
  2. Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
  3. Mas verdade alfim todos conheceram.
  1. “E pois que o privilégio hás alcançado
  2. De entrar nesse mosteiro portentoso,
  3. Por Cristo, como abade governado,
  1. “Um Pater Noster diz por mim piedoso;
  2. Quanto mister havemos neste mundo,
  3. Onde ato algum não há pecaminoso.” —
  1. “Por dar lugar ao spírito segundo,
  2. Já próximo, no fogo desparece.
  3. Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.
  1. Acerquei-me da sombra que aparece,
  2. E disse que ao seu nome apercebia
  3. Meu desejo o lugar que assaz merece.
  1. Logo assim livremente me dizia:
  2. — “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
  3. Me encobrir não quisera ou poderia.
  1. “Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
  2. Triste os erros passados meus lamento,
  3. E o fausto dia estou ledo esperando.
  1. “E peço-vos pelo alto valimento,
  2. Que da escada a eminência ora vos guia,
  3. Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”
  1. E, após, ao fogo apurador se envia.
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