ENQUANTO imos a borda costeando.
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Entre os luxuriosos e os que pecaram contra a natureza Dante encontra o poeta Guido Guinicelli, ao qual exprime a sua profunda admiração. Guido lhe aponta o poeta provençal Arnaud Daniel, que o saúda em versos provençais.
- ENQUANTO imos a borda costeando.
- Um após outro, o Mestre repetia:
- “Eu te previno, vai com tento andando!’
- O sol pela direita me feria;
- Purpureava a luz todo o poente:
- Do céu o azul de branco se tingia.
- Co’a sombra minha ainda mais rubente
- Parece a flama; e as almas, que passavam,
- Notando-a davam-me atenção ingente.
- Nessa estianheza ensejo deparavam
- Para, entre si, conversação travarem.
- “Não é fictício o corpo seu” — falavam.
- Quando podiam, mas tendo cuidado
- Avançavam por mais certificarem,
- O fogo expiatório em não deixarem.
- — “Tu, que vais após outros colocado,
- Mostrando ser, não tardo, respeitoso,
- Responde: em fogo e sede ardo, abrasado.
- “Não sou eu só de ouvir-te desejoso:
- Quantos vês da resposta sentem sede
- Mais que Etíope da água cobiçoso.
- “Diz-nos como o corpo teu parede
- Oponha desta sorte à luz do dia:
- Não te colheu da morte acaso a rede?” —
- Uma sombra falou-me. Eu pretendia
- Logo explicar; porém fui distraído
- Pelo que então de novo aparecia.
- Pelo caminho andando escandecido,
- Outra grei ao encontro veio desta:
- Atalhei-me, em mirar pondo o sentido.
- De parte a parte se dirige presta
- Uma alma a outra; osculam-se e em seguida
- Vão-se, contentes dessa breve festa.
- Assim da negra legião saída,
- Em marcha, toca em uma outra formiga,
- Por saber do caminho ou sorte havida.
- Separando-se após a mostra amiga,
- Antes que o giro sólito transcorra
- Cada uma grei em brados se afadiga.
- — “Sodoma!” — clama a última — “Gomorra!”
- E a outra: — “Entrou Pasifae na vaca,
- Por que à luxúria sua touro acorra.” —
- Como grous, de que um bando se destaca
- Para os Rifeus e o outro pra o deserto,
- Pois calma ali e frio aqui se aplaca,
- Uns se vão, outros vêm; voltando, ao perto
- O hino se renova, e o pranto e o brado,
- Que tem, qual mais convém, efeito certo.
- Os mesmos, que me haviam perguntado,
- De mim como inda há pouco, se acercaram:
- Stá desejo nos gestos desenhado.
- Vendo ainda o que já manifestaram,
- — “Sabeis vós, que tereis de glória em dia,
- Paz que os vossos martírios vos preparam,
- “Que inda não jaz meu corpo em terra fria;
- Comigo vem na própria compostura,
- Com seu sangue e seus membros” — lhe dizia.
- “Minha cegueira aqui a luz procura:
- Lá no céu santa Dama há conseguido
- Que eu, vivo, por aqui me eleve à altura.
- “Dizei-me (e seja em breve concedido)
- Quanto anelais, no céu, que é de amor cheio
- E em que espaço mais amplo está contido!
- “Para que eu tenha de narrá-lo o meio,
- Quem fostes e também que turba é aquela,
- Que como hei visto ao vosso encontro veio.” —
- Se o pasmo seu o montanhês revela,
- Quando rude e boçal vê de repente
- Quanto pode encerrar cidade bela,
- Na grei não foi o efeito diferente.
- Tornando sobre si, porém, do espanto,
- Que se esvai logo em peito preminente,
- — “Ditoso tu, que vendo o nosso pranto” —
- Respondeu quem primeiro há perguntado —
- “Alcanças ao viver ensino santo!
- “Inquinaram-se aqueles no pecado,
- Porque César outrora, triunfando,
- Rainha, em vitupério, foi chamado.
- “Eis por que se acusavam se apartando,
- Contra si de — Sodoma! alçando o brado,
- Do fogo à pena o opróbrio acrescentando.
- “Hermafrodito foi nosso pecado;
- Mas tendo as leis humanas transgredido
- De brutos no apetite desregrado,
- “Por nossa injúria o nome é repetido,
- Quando partimos, da mulher impura,
- Que em bestial figura besta há sido.
- “Se queres, vendo a nossa nódoa escura,
- Do nome de cada um ser instruído,
- Não sei, nem tempo para tal nos dura.
- “Mas o meu te farei bem conhecido;
- Vês Guido Guinicelli: o crime expia
- Por se haver inda a tempo arrependido.” —
- Quais, ante a fúria em que Licurgo ardia,
- Os filhos dois achando a mãe, ficaram,
- Tal senti, sem correr viva alegria,
- Quando o nome essas vozes declararam
- Do pai meu e do pai de outros melhores,
- Que em doce metro amores decantaram.
- Sem falar, sem ouvir perscrutadores
- Longamente olhos meus o contemplaram:
- Vedavam-me acercar do fogo ardores.
- Depois que em remirá-lo se enlevaram,
- Ao seu serviço declarei-me presto,
- E solenes promessas o afirmaram.
- — “Imprimiu tal vestígio o teu protesto” —
- Tornou — “no peito meu agradecido,
- Que fora além do Letes manifesto.
- “Se hei de ti a verdade agora ouvido,
- O que di’no me fez do sentimento,
- Que tens na voz, nos olhos insculpidos?” —
- E eu: — “Das rimas vossas o concento,
- Que, enquanto usar-se do falar moderno,
- Salvas hão de viver do esquecimento.” —
- — “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
- (E seu dedo outra sombra me apontava)
- Mais primor teve no falar materno.
- “Nos versos, nos romances superava
- A todos: stultos só dizer ousaram
- Que o Limosim aquele avantajava.
- “Pelo rumor verdade desprezaram,
- E, como arte e razão desconheceram,
- Sem fundamento opinião formaram.
- “Assim muitos outrora procederam
- Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
- Mas verdade alfim todos conheceram.
- “E pois que o privilégio hás alcançado
- De entrar nesse mosteiro portentoso,
- Por Cristo, como abade governado,
- “Um Pater Noster diz por mim piedoso;
- Quanto mister havemos neste mundo,
- Onde ato algum não há pecaminoso.” —
- “Por dar lugar ao spírito segundo,
- Já próximo, no fogo desparece.
- Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.
- Acerquei-me da sombra que aparece,
- E disse que ao seu nome apercebia
- Meu desejo o lugar que assaz merece.
- Logo assim livremente me dizia:
- — “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
- Me encobrir não quisera ou poderia.
- “Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
- Triste os erros passados meus lamento,
- E o fausto dia estou ledo esperando.
- “E peço-vos pelo alto valimento,
- Que da escada a eminência ora vos guia,
- Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”
- E, após, ao fogo apurador se envia.