Ó DOS mortais aspirações erradas!
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Dante elogia a vida contemplativa. — As palavras proferidas no canto anterior por S. Tomás criam duas dúvidas no ânimo do poeta. O santo, tratando de resolver a primeira, esboça a vida de S. Francisco de Assis.
- Ó DOS mortais aspirações erradas!
- Em que falsas razões vos enlevando
- Tendes à terra as asas cativadas!
- Qual seguia o direito; qual buscando
- Já aforismos; qual o sacerdócio;
- Qual reinava, sofisma ou força usando;
- Qual roubo amava, qual civil negócio;
- Qual, a salaz deleite entregue a vida,
- Afanava-se; qual passava no ócio;
- Enquanto eu, livre da terrena lida,
- Ao céu com Beatriz me alevantava,
- Aceito lá com glória tão subida.
- Cada alma santa ao ponto já tornava
- Do círculo em que de antes demorara;
- E como círio em candelabro estava.
- Então da luz, que de antes me falara
- Voz suave escutei; e assim dizendo
- Do seu brilho a pureza se aumentara:
- — “O lume eterno, em que me inspiro e acendo,
- Eu, contemplando, claramente leio
- Teu pensamento e a origem lhe compreendo.
- “Desejas tu, da dúvida no enleio,
- Que eu aproprie da tua mente à esfera
- O que dizer-te, há pouco, me conveio.
- “Eu te disse — caminho onde prospera —
- — De saber tanto não se alçou segundo: —
- Aqui é, pois, que a explicação te espera.
- “A Providência, que governa o mundo
- Com tão sábio conselho, que, torvada
- Sente a vista quem quer sondar-lhe o fundo.
- “Por ser ao seu dileto encaminhada
- Casta Esposa daquele, que alto grito,
- Desposando-a, soltou na Cruz Sagrada,
- “Com ânimo mais forte e à fé restrito,
- Dois príncipes, lhe deu, que, em seu desvelo,
- O caminho mostrassem-lhe bendito.
- “Um seráfico foi no ardor do zelo,
- Outro ostentou, por seu saber na terra,
- De querúbica luz esplendor belo.
- “De um só te falarei; pois num se encerra
- O que de outros aos louvores mais se estende:
- Quem der aos dois o mesmo fim não erra.
- “Entre Tupino e o rio, que descende
- Do outeiro, que escolhera santo Ubaldo,
- Fértil encosta de alto monte pende.
- “Dali baixa a Perúgia o frio e o caldo
- Pela porta do Sol; atrás padece
- Em duro jugo Nócera com Gualdo.
- “Onde o declive menos agro desce
- Nasceu ao mundo um sol tão luminoso,
- Como o que ao Gange às vezes esclarece.
- “Desse lugar quem fale portentoso
- Não diga Assis, que pouco declarara:
- Chame Oriente o berço glorioso.
- “Do nascente este sol pouco distara,
- Quando o conforto a receber a terra
- Já das virtudes suas começara.
- “Contra seu pai, adolescente, em guerra
- Entrou por dama, a quem bem como à morte,
- Ninguém a porta com prazer descerra.
- “Então da Igreja a recebeu na corte,
- E coram patre, por esposa amada
- E amor votou-lhe cada vez mais forte.
- “Vivera ela viúva e desprezada
- Séculos onze e mais, e de outro amante,
- Senão deste, não fora requestada;
- “Em vão se disse que no lar, constante,
- De Amiclas a encontrou esse guerreiro,
- De quem tremera o mundo titubante;
- “Em vão fiel, de coração inteiro,
- Quando Maria ao pé da Cruz ficara,
- Com Cristo ela subira-se ao madeiro.
- “Para fazer minha linguagem clara,
- Em suma, o nome sabe dos amantes:
- Com pobreza Francisco se casara.
- “Dos dois santa união, ledos semblantes,
- Seu terno olhar e afeito milagroso
- Dão a todos lições edificantes.
- “Aquela paz anela cobiçoso
- Venerável Bernardo que, primeiro,
- Descalço corre e crê ser vagaroso.
- “Riqueza inota! Ó Bem só verdadeiro!
- Descalço vai Egídio, vai Silvestre,
- Porque amam-na, do esposo no carreiro.
- “Dali se parte aquele pai e mestre
- Com terna esposa e com família santa
- Que de corda o burel cinge campestre.
- “Não baixa os olhos, nem se torna e espanta
- Por filho ser de Bernardone obscuro,
- Nem por sofrer desdém em cópia tanta.
- “Mas afouto mostrou o intento duro
- A Inocêncio de quem primeiro obteve
- Assenso ao regimento austero e puro.
- “E quando a pobre grei progresso teve,
- Após aquele, a cuja heróica vida
- Melhor no céu louvor de anjos se deve,
- “Foi a c’roa segunda concedida
- Por Honório, que o Santo Espírito alenta
- Daquele arquimandrita a santa lida.
- “Em breve a sede do martírio o tenta,
- E do Soldão soberbo na presença
- Cristo anuncia e a lei que o representa.
- “Vendo rebelde o povo à nova crença.
- Por não ficar seu zelo sem proveito
- Da Itália volta para a messe extensa.
- “Na dura penha, que se interpõe ao leito
- Do Tibre e do Arno, o derradeiro selo
- Cristo lhe pôs: dois anos dura o efeito.
- Quando a Deus, que a bem tanto quis movê-lo,
- O prêmio prouve dar-lhe merecido,
- Na humildade cristã por seu desvelo,
- “Essa esposa, que amara estremecido,
- Aos irmãos confiou por justa herança,
- Para afeto lhe terem sempre fido.
- “Do seio da pobreza então se lança,
- Tornando ao reino seu, a alma preclara:
- Nesse jazigo o corpo seu descansa.
- “Pensa, pois, o que foi quem Deus julgara
- Di’no após ele, de reger a barca
- Que Pedro, no alto mar encaminhara.
- “Coube a tarefa ao nosso patriarca:
- Quem, fiel, aos preceitos lhe obedece,
- Sabe tesouros arrecadar na arca.
- “Sua grei novo pascigo apetece,
- E tanto é dos desejos impelida,
- Que em diferentes campos aparece.
- “Quanto mais cada ovelha é seduzida
- Do mundo pelo pérfido atrativo,
- Tanto mais ao redil volta inanida.
- “Poucas temendo o lance decisivo,
- Acolhem-se ao pastor: escasso pano
- É já para vesti-las excessivo.
- “Se claro te falei, livre de engano,
- Se tens estado ao que te digo atento,
- Se da memória não receias dano,
- “Ao teu desejo, em parte, dei contento,
- Pois da planta bem vês qual seja a rama;
- E o corretivo está neste argumento:
- Onde prospera só quem mal não trama.”