SE este sacro poema houver podido
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S. Tiago examina o Poeta sobre a Esperança, perguntando em que ela consiste, se ele a possui, de onde veio nele. À segunda pergunta responde Beatriz; às outras duas responde Dante. Aproxima-se S. João Evangelista, e diz a Dante que o seu corpo, apesar da comum opinião, morrendo, ficara na Terra.
- SE este sacro poema houver podido
- (Em que tem posto a mão o céu e a terra
- E em que hei por tanto tempo emagrecido)
- Aquele ódio abrandar que me desterra
- Do belo aprisco, onde eu dormi cordeiro,
- Contrário aos lobos, que lhe movem guerra;
- Com voz e lã melhor que de primeiro
- Voltando, eu do batismo sobre a fonte
- Hei-de, vate, cingir-me de loureiro;
- Pois lá entrei na fé, que uma alma insonte
- Aproxima de Deus e causa há sido
- De girar Pedro em torno à minha fronte.
- Então a nós um lume vem saído
- Da grei, a que a primeira pertencia
- Dos vigários, que há Cristo instituído.
- Beatriz, resplendente de alegria,
- — “Olha!” — me disse — “Eis o Barão famoso
- Por quem vai-se à Galízia em romaria!
- Quando à consorte acerca-se amoroso
- O pombo, cada qual mostra, girando
- Entre arrulhos o ardor seu amoroso:
- Os dois Príncipes vi tão ledos, quando
- Da glória sua no esplendor se acolhem
- O manjar, que se frui no céu louvando.
- Depois que as saudações entre si colhem
- Coram me cada um tácito fica
- Com tais clarões, que de os olhar me tolhem.
- Sorrindo, Beatriz assim se explica:
- — “Ó alma egrégia, por quem foi descrita
- Delícia, de que a nossa igreja é rica,
- “Aqui a Esp’rança faz ouvir bendita:
- Mostraste-a, toda vez que aos três há dado
- Jesus de vê-lo em sua Glória a dita.” —
- — “Ergue o rosto com spírito esforçado,
- Pois da terra quem sobe a tanta altura
- Ser deve ao brilho nosso afeiçoado.” —
- O ânimo desta arte me assegura
- A luz segunda; a vista, pois, levanto
- Aos montes, cujo lume a fez escura.
- — “Se o nosso Rei te há dado favor tanto,
- Que vês os condes seus antes da morte
- Do seu palácio no recinto santo,
- “Porque, vindo é verdade desta corte,
- A Esperança, que tanto os homens prende,
- Em ti, nos mais o coração conforte.
- “O que ela seja diz, como se acende
- Em tua alma; diz donde se origina.” —
- Estas palavras inda o santo expende.
- E quem as plumas conduziu beni’na
- Das asas minhas neste vôo ingente,
- Tornou, por que a resposta me previna:
- “A militante Igreja um mais ardente
- Filho não tem na Esp’rança, como escrito
- É no Sol, que alumia a nossa mente.
- “Eis por que Deus permite que do Egito,
- Para ver a Sião tinha chegado
- Antes de estar o tempo seu prescrito.
- “Os outros pontos dois lhe hás perguntado,
- Somente por que à terra ele respira
- Quanto és desta virtude deleitado.
- “Lhos deixo, sem que assim vangloria aufira;
- Poderá responder ao teu contento,
- Se a Graça divinal o alenta e inspira.
- “Como discíp’lo, que a seu Mestre atento
- De assunto fala, em que é perito e experto, —
- Folgando de mostrar zelo e talento,
- “Esperança é” — disse tu — “guardar certo
- Da Glória, pela Graça produzida
- E mérito provado e descoberto.
- “Sendo luz de astros muitos procedida,
- Pelo sumo cantor do Sumo Guia
- Foi-me primeiro na alma introduzida.
- “Espere em ti — na excelsa Teodia
- Disse — aquele, que o nome teu conhece:
- Com fé como eu, quem não conheceria?
- “Como seu rocio, também sobre mim desce
- O da Epístola sacra e, redundante,
- Outros inunda a chuva, que recresce.”
- Falava assim: do seio coruscante
- Daquele incêndio tremulava chama,
- Qual relâmpago, súbita, incessante.
- Respondeu-me: — “Esse amor que inda me inflama
- Pela virtude, que me dera alento
- No martírio, ao findar da vida a trama,
- “Atrai-me a ti, que tens contentamento
- Por ela; e, pois, me diz de qual ventura
- A Esperança te fez prometimento.” —
- E eu: — “Foi declarado na Escritura
- O sinal (sua forma está sabida)
- De almas, que, amigas, o Senhor apura
- “Disse Isaías: cada qual cingida
- Em sua pátria será de dupla veste,
- E a pátria sua é nesta doce vida.
- “Por que mais a verdade manifeste,
- Das cândidas estolas discorrendo
- Mais claro teu irmão falou do que este.” —
- Palavras tais eu proferido havendo.
- “Sperant in te” ressoa lá da altura,
- Ao hino os coros todos respondendo.
- Lume entre eles depois tanto fulgura,
- Que, se o Câncer tivesse igual estrela,
- Fora do inverno um mês luz sem mistura.
- Como leda no baile entra a donzela
- E, para a noiva honrar, dança inocente
- Sem que vício ou vaidade impere nela:
- O clarão assim vi resplandecente
- Aos dois se apropinquar, que circulavam
- Quanto convinha ao seu amor ardente.
- Entrou no canto e dança, que formavam:
- Qual sem voz sposa imota, aos três o aspeito
- De Beatriz os olhos contemplavam.
- — “O santo é este, que estreitava ao peito
- O nosso Pelicano e dele há sido
- Sobre a cruz à missão sublime eleito.” —
- Assim diz Beatriz. Sempre embebido
- O seu olhar está na luz terceira
- Depois, como antes de eu a ter ouvido.
- Quem do sol fita os olhos na carreira,
- Crendo vê-lo de eclipse anuviado,
- Para ver sente o efeito da cegueira:
- Por esse lume assim fui deslumbrado.
- — “Por que te afanas procurando” — fala —
- “O que no céu não pode ser achado?
- “Na terra o corpo meu à terra iguala,
- Até que o nosso número complete
- O que eterno propósito assinala.
- “Ter vestes duas só do céu compete
- No claustro aos lumes dois, que se elevaram:
- Esta verdade ao mundo teu repete.” —
- Calou-se e os esplendores três pararam
- E com eles a doce melodia,
- De que os sons a coréia acompanharam.
- O remo, assim, que o mar de antes feria,
- Se há fadiga ou perigo, é bem que cesse,
- Logo ao sinal do apito, que assobia:
- Na mente ai! quanto a comoção recresce,
- Quando o gesto não pude ver formoso
- De Beatriz ainda que eu stivesse
- Ao seu lado e no mundo glorioso!